Recordo-me perfeitamente da conversa que tivemos quando insisti contigo para seguires uma carreira na Magistratura. Na altura o teu desejo era continuar a leccionar na Universidade. Eu percebi o teu impulso mas não resisti a explicar-te que vivíamos num País onde se dava pouca importância à carreira académica, muito pragmaticamente falei-te dos ordenados miseráveis que o Estado reservava para quem dava aulas. Os dois tínhamos leccionado no ensino secundário e quase ao mesmo tempo transitámos para a Universidade, cada um na sua especialidade. O estereótipo de professor era muito próximo do de jornalista que eu era e que tu estiveste quase a ser.
Uma figurinha que copiava os tiques do operariado e que fazia gala em vestir mal, usar boina, frequentar tabernas e sei lá eu mais. Eram os operários da escrita e do ensino, envoltos numa militância guevarista a que poucos escapavam. A minha intenção não era afastar-te desse mundo que por força das circunstâncias eu conhecia bem melhor que tu. Moviam-me duas preocupações fundamentais – em primeiro lugar, "empurrar-te" para uma carreira mais prestigiada e melhor remunerada, coisa não despicienda para quem abandonou todos os seus bens em Angola e estava a iniciar uma nova vida. Em segundo lugar, sentir-te na trajectória de uma actividade que me fascinava e a que não pude ter acesso (o curso de Direito estava proibido em Angola) por ser o filho mais velho da nossa família.
A Justiça, a preocupação de ser justo, o medo de cometer injustiças sempre povoaram a minha cabeça. A oportunidade para mudares de rumo era grande e de certo modo atenuava-se com isso a minha frustração. O Centro de Estudos Judiciários estava aberto há pouco tempo e dava sinais de uma grande vitalidade e eficácia. Lá foste então fazer mais dois anos de estudos para seres juiz. Quando te nomearam para um tribunal no interior alentejano eu fiquei orgulhoso de ti. O meu irmão mais novo estava investido duma enorme responsabilidade – julgar os outros e ser justo. Coisa difícil, sem dúvida, mas muito nobre. Enquanto fazias a tua caminhada eu pus de pé a TSF. A seguir foi a minha aventura da SIC. Passei os últimos 15 anos como Director destas duas instituições. Os meus caminhos aí cruzaram-se permanentemente com a Justiça. As polícias, em especial a Polícia Judiciária, e os tribunais passaram a fazer parte da minha semana, sem excepção. Um fardo pesado para quem tinha tantas tarefas editoriais e ainda por cima arcava, ab initio, com a responsabilidade criminal de tudo o que acontecia na estação. Foi um calvário, um verdadeiro calvário. A corrida semanal para as diferentes instâncias da Justiça mesmo quando não sabia sequer do que me acusavam transformou-se num vómito. Algumas honrosas excepções evitaram a derrocada. Mas comecei a descrer da Justiça. Habituei-me a aceitar as decisões dos tribunais como se do Totobola se tratasse. Aprendi a perceber os resultados dos julgamentos logo na primeira sessão. Convivi com juízes que, antes de julgar, já tinham a sentença dada. Um dia até passei pelo absurdo de ter uma decisão de um juiz que proibia o meu advogado de me defender. Felizmente, uma instância superior de juízes conseguiu anular a aberração.
Afinal, meu irmão, uma boa parte dos juízes não só erram como qualquer mortal, como estão tocados no acto de julgar pelos vícios da injustiça, inveja, parcialidade, incompetência, vingança que em si próprios residem. Mataram em mim a ideia grande de que o julgamento dos homens/juízes poderia, apesar de tudo, ser imparcial, justo, competente e não condicionado por subjectivismos pessoais.
Não sei o que tu pensas disto tudo. Como é óbvio nunca fui julgado por ti e não posso "julgar-te". Mas és um juiz e muito provavelmente tinhas razão quando te inclinavas para uma carreira universitária.
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