Partilhar

A posse do Governo Passos-Portas consolida um novo ciclo político iniciado com a eleição presidencial e que teve o ponto de rutura e viragem com o discurso de posse de Cavaco ao tocar a rebate para a imediata abertura da crise. Tal como a esquerda é fratricida, fraturante e ciosa da afirmação de intransponíveis linhas vermelhas, a direita é pragmática, utilitária e afirmativa na relação com o poder. Daí que não valorize excessivamente o escorregão de Nobre que permitiu a Portas marcar terreno e a todos reafirmar apego à palavra dada à custa do inocente tão vaidoso quanto útil.

A direita tem condições políticas únicas para a afirmação de um projeto governativo beneficiando da fácil responsabilização do PS palas causas da crise e pelo programa de acção negociado com a troika. Para além da natureza agregadora e afrodisíaca do poder dispõe de uma sólida base parlamentar, de uma vaga de comentadores seduzidos pelo papel que desempenharam no desacreditar de Sócrates e da circunstância única de, ao contrário de experiências anteriores, estar em Belém o patriarca dos políticos profissionais que, fingindo não ter vocação, têm uma carreira de singular sucesso.

Pub

Os riscos que a nova maioria corre têm a ver com a causa externa da desgraça económica e com o deslumbramento ideológico da nova direita. O Governo é uma coligação tripartida dos núcleos duros do PSD e do CDS com gurus ideológicos sem qualquer experiência executiva. A desgraça do PS resultou de não ter aprendido nada com a perda da maioria absoluta e ser afogado pela crise especulativa que ameaça acabar com o euro e com a União Europeia.

Para a direita foi conveniente mostrar-se ignorante em economia internacional e paroquial no apontar do dedo. A desgraça grega e a incapacidade de Merkel e Sarkozy não mudaram com as eleições portuguesas e já esta semana ouvi dizer que a crise internacional é a maior ameaça para o novo Governo. Passos vai descobrir depressa a noção de solidariedade da direita europeia.

O segundo risco tem a ver com a tentação de passar de uma governação conservadora com encenação de diálogo social para um PREC de direita marcado pela agenda de revisão constitucional do PSD. Tempo estranho em que o CDS é a consciência social e os independentes apolíticos os talibãs radicais. É essa a diferença entre um casamento de Verão à antiga e um amor de praia a desfazer-se com as primeiras tempestades orçamentais.

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar