Foi ontem apresentado, em Famalicão, o primeiro texto escrito em português. Em pele de animal e com data incerta, mas anterior a 1175, ao documento foi dado o nome de ‘O Pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais’ porque todas as coisas fundadoras merecem título. Foi escrito ainda no reinado de D. Afonso Henriques. É, pois, o mais avô dos textos que foram e são escritos na nossa língua – da Mensagem, de Pessoa, ao aviso “Hoje há caracóis”, ontem, no restaurante A Parreirinha. Os versos da Mensagem estão primorosamente escritos, o aviso do restaurante tem o devido “h” e os acentos estão certos, e para o tabelião que escreveu o documento deve ser um orgulho tremendo ter fundado uma língua tão bela e tão certa. Para o impedir de dar voltas ao túmulo, seria conveniente não lhe mostrar outras coisas que por cá são escritas.
Os historiadores andam à volta da data exacta do documento. Andam à volta, mesmo, viram e reviram a pele, que está escrita dos dois lados. ‘O Pacto de Gomes lPais e Ramiro Pais’, escrito do lado nobre da pele, o dos pêlos, não está datado. Do lado mais pobre (o da pele virada para a carne) está outro texto, este, datado de 1175. Por isso se concluiu que ‘O Pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais’ é mais antigo. Eu temo que os historiadores estejam a ver os portugueses de antanho já com o vício dos modernos. De facto, hoje, com o ordenado fresco vai-se de automóvel para o emprego e acaba-se o mês indo pela Carris. Mas nada garante que os antigos não fossem mais poupados e não começassem a gastar a pele pelo lado pobre.
Confesso que mais ano ou menos ano do início da língua me deixa indiferente, contento-me em saber que os meus trinetos poderão participar nos festejos do primeiro milénio da língua que me paga o dia-a-dia. Já me impressiona mais o tema do documento. Gomes e Ramiro eram irmãos, vizinhos de freguesia, e o texto é sobre o fim de guerra entre ambos. Não vos inquieta que tenhamos começado tão conflituosos? No documento, um dos irmãos garante ao outro que não volta a meter-se nas terras do outro, esperando em troca protecção – e ambos assinam. Choca-me a necessidade de passar pelo notário para sanar a guerra fratricida.
A apresentação do texto foi feita em S. Miguel de Seide, na casa de Camilo Castelo Branco. É tranquilizador que tenha sido aí. Camilo – 600 e tal anos mais tarde que os irmãos Gomes e Ramires – tem uma novela em que as relações familiares, em vez de atiçarem a violência, previnem o crime (falo, evidentemente, da novela com o mais giro título da Literatura Portuguesa: ‘Maria não me Mates que eu Sou Tua Mãe’).
Espero que sim, espero que tenhamos ficado familiarmente mais mansos. Mas que começámos mal, começámos. Já se sabia das turras entre as duas irmãs D. Teresa e D. Urraca (a nossa, a D. Teresa, até intrigou o suficiente para o cunhado expulsar a D. Urraca, sua mulher, do palácio). Já se sabia que Portugal nascera da derrota de uma mãe (D. Teresa) pelo filho (D. Afonso Henriques). Mas sempre pensámos que eram querelas de Estado. Este documento, ‘O Pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais’, vem confirmar que a crise da família portuguesa é coisa, além de antiga, comum.
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