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Em geral, não gosto de saber o que dizem de mim pelas costas – posso ficar vaidoso. Mas capto certas bocas foleiras. Cochicham, por exemplo, que corro atrás da minha juventude. Ora, é a pura verdade – e não apenas da minha. Quem gosta de ruínas é a Lara Croft. Mas falemos de coisas compactas. Não, não do pobre Marques Mendes, mas dos miúdos propriamente ditos.

As crianças de hoje são simplesmente monstruosas – não demonstram o mínimo respeito pelos nossos capachinhos. Fazem muito mal, pois a experiência é precisamente um pente que a vida nos dá quando já estamos carecas. Anotem: os grandes programas de TV não nascem todos os dias; as crianças, sim.

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A rede americana CBS, brandindo um contrato principesco, convenceu 40 pais e mães a deixarem os filhos participar em ‘Kid Nation’, que se estreou há uma semana nos EUA. São 40 miúdos, entre 8 e 15 anos, vivendo sem adultos numa cidade cenográfica – mas não são “eliminados” e se quiserem podem ir para casa e depois regressar à base. Objectivo do jogo: embolsar pilim, através da competição ardilosa e alarve. Enfim, uma mistura de ‘Big Brother’ com ‘O Senhor das Moscas’. Deprimente. Bem sei que a vida não é pêra doce, mas tão-pouco as crianças são meros bonsais – miniaturas de coisas maiores.

Na RTP 1, pica o ponto, todo o santo dia, ‘Sabe Mais do que um Miúdo de 10 Anos? O trunfo de Jorge Gabriel é a sua exuberante mediania, que favorece a empatia. Nem brilhante nem bronco; nem piroso nem dândi. Mais ou menos como Fátima Lopes (a apresentadora, não a estilista que faz “wonder bras” disfarçados de vestidos). A ‘piada’ do concurso é desmascarar a pretensa sabedoria dos crescidos. Lembra-me o título daquele best-seller: ‘Tudo o Que Sei Aprendi no Infantário’.

Bem, por um lado, todos somos ignorantes, só que em assuntos diferentes. Confesso que sei muito pouco sobre apicultura. Isso faz de mim um jumento? Por outro lado, o conhecimento é cumulativo: requer não apenas esforço (que não exclui nem o prazer nem o entretenimento), mas tempo. Subjacente a tais programas pulsa uma noção obscurantista e nefasta: a de que a cultura não vale a ponta de um corno.

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Observem a actual infantilização do cinema americano, com o seu ritmo pavloviano e os diálogos monossilábicos (fuck isso, fuck aquilo). Sinto muito desapontá-los, baixotes, mas eis a triste verdade: ninguém é jovem o suficiente para saber tudo.

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