Pertenço aos que não gostaram da prestação do Governo nos primeiros 100 dias de vida. Independentemente de um posterior emendar de mão, foram três meses perdidos com um discurso excessivamente negativista e marcado por um voluntarismo propenso ao erro. Felizmente as coisas foram melhorando e tudo está em aberto para o juízo final em 2006.
No entanto, manda a elementar justiça que reconheça que me enganei – felizmente pertenço ao grupo dos vulgares cidadãos que se enganam muitas vezes – quanto a um ‘dossier’ então despoletado: a RTP.
O ministro Morais Sarmento, num estilo que me pareceu leviano, nomeou uma nova administração e anunciou profundas reformas que me pareciam irrealistas e geradoras de instabilidade. Dois anos volvidos, tenho que reconhecer o acerto do caminho.
A administração, sempre apoiada politicamente pela tutela, atingiu resultados pouco habituais no nosso País. Conseguiu iniciar de forma visível o saneamento financeiro de um dos maiores ‘buracos negros’ do Estado. Diminuiu o passivo da empresa em mais de 200 milhões de euros num ano. Rentabilizou um património imobiliário valioso, em conjugação com a renovação das suas instalações, numa decisão de boa gestão óbvia, mas que mais ninguém fez. Conduziu com mestria o processo de racionalização de recursos humanos, numa empresa com um excedente de mais de mil trabalhadores. Tudo sem dramas sociais nem conflitos públicos significativos!
É verdade que ainda existem desafios que condicionarão uma opinião definitiva sobre o projecto. Ainda não se vê de forma nítida o padrão da sua ideia institucional e funcional do que é o serviço público de televisão. O segundo canal e a NTV continuam a ser uma nebulosa disforme, cujas ideias base merecem uma reapreciação. Existem ainda outras opções estratégicas a definir, que têm a ver com o papel nuclear da empresa no contexto do audiovisual e das tecnologias de informação.
Todavia, até em relação a tudo isso, existem sinais simples que nos alimentam a esperança. Exemplo emblemático: a reabilitação do jornal do Canal 1, que cortou com o estilo pimba de alguma concorrência, conquistando a respeitabilidade geral. Só por isto já merecia crédito a ‘nova’ RTP.
Num momento em que foram anunciados mais 357 milhões de euros para tapar o ‘buraco’ a 17 empresas públicas, e o Tribunal de Contas, numa auditoria ao Metropolitano de Lisboa, arrasa indirectamente todo o sector empresarial do Estado, Almerindo Marques e a sua equipa têm direito a elogio exuberante.
Pegando nestes exemplos, maus e bom, era o momento ideal de repensar toda a interligação do Estado ‘patrão’ e as suas empresas. A introdução da gestão por objectivos publicamente contratualizados, com administradores puníveis mas também recompensáveis, é uma das muitas reformas para avançar já.
Morais Sarmento, que gosta de boxe, e que, pelo seu início impetuoso e aparentemente precipitado, apelidei de Mike Tyson, já passou a ter o direito ao estatuto de respeitabilidade de Rocky Marciano. Se continuar a dar a cara por reformas com este tipo de resultados poderá aspirar ao estatuto dos virtuosos. Uma espécie de Muhammad Ali (ex-Cassius Clay) deste ciclo político.
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