Apesar de os resultados da sua governação serem, até agora, medíocres, José Sócrates consegue manter-se com níveis muito significativos de aceitação popular, resultado da sua arte na gestão da comunicação e imagem e no facto de estar permanentemente sozinho no palco.
Assumindo a postura de ‘one man show’, tão ao gosto do português médio, Sócrates tem sabido condicionar a opinião pública. Sempre da mesma forma, sempre com a mesma eficácia.
Diaboliza os professores, “uns gazeteiros”, e avança com medidas para combater essa “horrível corporação”. Aponta o dedo aos autarcas, “esses despesistas”, e coloca na mesa um novo quadro de financiamento que os mete nos eixos. Demoniza os funcionários públicos, “esses preguiçosos”, e apresenta um pacote de “racionalização” da Administração Pública. Estimula os ressentimentos continentais em relação à autonomia madeirense, qualificada de “gastadora”, e marcha para uma tentativa de controlo político dessa região autónoma.
As reacções violentas de professores, autarcas, funcionários ou de Alberto João eram previsíveis e até desejadas: só reforçam o estatuto de Justiceiro, imagem de marca do líder do Executivo.
É óbvio que esta imagem só é possível dado o desprestígio das lideranças sindicais, a inconsequência do associativismo autárquico e a ausência de um discurso de Oposição perceptível, credível, consistente.
A Esquerda marxista-leninista e trotskista agita-se, mas nunca será levada a sério. O CDS está em prolongado “estado comatoso”. O PSD só aparece numa lógica “politicamente correcta”, vivendo do gozo contemplativo do elogio de comentadores que já não influenciam ninguém.
É lastimável que o PSD não tenha opinião formada sobre a querela entre Poder Local e o Governo. É indesculpável que, liderando o PSD a larga maioria das Câmaras, não reúna o seu Conselho Nacional para discutir a Lei das Finanças Locais. É inexplicável que não tenha ainda apresentado um projecto alternativo. Se há matéria a exigir um pacto de regime era esta.
O PSD dá uma no cravo e outra na ferradura, ficando no pior dos limbos. Não se quer comprometer com um Poder Local “desprestigiado”, mas sente-se na obrigação de um tímido protesto. Não quer ferir os ‘opinion makers’ que detestam os autarcas, mas sente-se na obrigação de os confortar com cartas simpáticas e inócuas. Nada faz para salvar o doente, mas financia o funeral e paga às carpideiras.
O PSD tinha de, nesta matéria, fazer a diferença. Apresentar as suas ideias. Solidárias com o esforço de contenção orçamental? Sem dúvida. Mas com um modelo alternativo de Administração Pública Local, dando novo ímpeto a reformas anticentralistas e modernizadoras. Com este tipo de omissões, o PSD vê Sócrates a aguardar que os fundos comunitários, o encaixe das privatizações e o crescimento económico da Europa resolvam o seu problema.
Não é verdade que o Poder se perde e não se conquista. Ao contrário, o Poder pode ser conquistado. Com combate político sério e competente.
P.S. – ‘Dirty Harry’, interpretado por Clint Eastwood, um Justiceiro à americana
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