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O Congresso do PSD já foi dissecado até à exaustão. O estilo e o conteúdo dos discursos do líder, a qualidade da equipa dirigente e a nova atitude no exercício do poder, dominaram os comentários.

Paradoxalmente, quase toda a gente passou à margem do facto mais condicionador do futuro político da actual maioria: a questão presidencial e o repto lançado a Cavaco Silva pelo presidente do PSD.

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Há três meses atrás, o PSD vivia numa maré de abundância de possíveis candidatos às eleições presidenciais. Pedro Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa e Aníbal Cavaco Silva protagonizavam todos os estudos de opinião. A esquerda só via em António Guterres, que tem gerido com inteligência a sua imagem e o seu silêncio, a única candidatura capaz de conseguir uma derrota honrosa.

Entretanto, Santana passou da Câmara de Lisboa para o Palácio de S. Bento, enquanto Marcelo e a direcção do PSD se incompatibilizaram. Sobrou Cavaco.

Depois do Congresso do PSD em Barcelos, que consequências políticas se podem tirar do anúncio do nome de Cavaco como o candidato preferido pelo PSD para as presidenciais?

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Surpreendentemente, nenhum dos reputados analistas políticos que comentaram o Congresso abordou esta questão. E, no entanto, ela vai condicionar mais o futuro político do País, do que o debate sobre a “mercearia” pós-congresso, do lugar para aqui ou para ali, de saber quem “ganhou” com a entrada de sicrano para 47.º ou de fulano para 55.º do Conselho Nacional.

Vejamos. A escolha, assumida por Santana, de Cavaco como candidato apoiado pelo PSD, era a última coisa que ambos desejariam. No entanto, ambos estão irremediavelmente prisioneiros deste cenário.

A Santana não lhe é simpática a ideia de coabitação com um PR com uma marcada vocação “presidencialista”. A Cavaco Silva é--lhe incómoda a sensação de ser “empurrado” e ver os seus ‘timings’ condicionados por um líder político cujo estilo não aprecia.

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Contudo, a vida prega estas partidas. O PSD, (e, consequentemente, Santana Lopes) só terá possibilidades de vencer as presidenciais com Cavaco Silva e o ex-primeiro- -ministro só chegará ao Palácio de Belém se aceitar “embarcar na fragata” da actual maioria. Com Santana como o homem do leme, e co-pilotada por Paulo Portas! Imagine-se!!!

A reforçar esta tese, o calendário eleitoral – autárquicas, seguidas de presidenciais e legislativas –, faz com que toda a dinâmica do processo esteja condicionada pela personalidade do candidato a Belém. Um candidato frágil enfraquecerá as pretensões da actual maioria. Cavaco Silva, pelo contrário, não só as aumentará, como servirá de avalista a um Governo em dificuldades.

À esquerda, a corrida também tem um novo interesse. A “opção Guterres”, aparentemente desejada por José Sócrates, não é completamente tranquilizadora. Reavivará a ligação de Sócrates a um dos mais negativos períodos governativos da última década. Ressuscitará os fantasmas do descalabro financeiro, do diálogo paralisante, da deserção no Inverno de 2001. O “não” de Guterres colocaria na corrida nomes como António Vitorino, Jorge Coelho ou Jaime Gama. Os três, “tutores” do actual secretário-geral socialista.

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Como está volátil, interessante e repleto de imponderáveis o panorama político. Parafraseando Vasco Pulido Valente: o mundo está perigoso!

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