Os portugueses, além da morte e dos impostos, têm hoje uma terceira certeza, a de que nos próximos anos vão dormir com o FMI. As causas são um amargo caldo de irresponsabilidade política, calculismo partidário e consequências de crédito bancário barato vendendo a ilusão de que na zona euro o défice externo deixara de contar. Mas hoje a Europa é cada vez menos uma união e, tal como sucedeu antes das duas grandes guerras do século XX, em tempo de crise a solidariedade é um mito e os extremismos populistas um sucesso eleitoral.
O resgate encomendado por Passos Coelho para chegar ao poder antes do despertar de Rui Rio, sem preparação nem programa, é uma provação injusta e desnecessária que destruiu a imagem de Portugal por longos anos. É um passo na vingança social do liberalismo especulativo após o valente susto da queda em cadeia dos bancos gulosos em 2008. Ainda se está a negociar o programa de acção para Portugal e a desgraça prossegue com a ameaça de incumprimento da Grécia e as tentações de contágio à Itália e à Espanha. Como dizia Brecht, só no dia da queda de um grande é que a medíocre liderança franco-germânica perceberá que é a Europa do pós-guerra que está em causa. Entretanto, as perversas agências, que insistem em fazer política sem legitimidade, ameaçam baixar o rating dos Estados Unidos, que, tal como Portugal, aumentaram o défice de 3% para 10% em 2009, depois de Obama impedir o golpe republicano de baixar os impostos dos ricos e as despesas com a saúde dos pobres.
Como se vê, o único internacionalismo florescente é o da submissão da vontade democrática aos obscuros ditames dos mercados sem rosto. Portugal tem de fazer a sua parte para recuperar credibilidade. Para tal, é indispensável dizer bem alto, como até Strauss--Khan lembrou, que não somos como a fraude criada pela direita grega nem temos a bolha especulativa irlandesa. O nosso problema é de loucura bancária, crédito fácil e défice externo devido sobretudo aos combustíveis para o nosso delírio automóvel. Não ouvi ainda ninguém pôr no topo da agenda estas causas nem as inevitáveis mudanças de vida. Passos Coelho é o menino ingénuo que fará tudo para poder fingir que manda. Sócrates tem de provar que sabe ouvir para liderar Portugal com agenda própria. Passos dormirá com o FMI por prazer, Sócrates por inevitável conveniência. Quem não for capaz de falar claro e gerar consensos tornará os próximos anos dos portugueses um pesadelo.
(Opinião segundo as regrasdo Acordo Ortográfico)
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt