Já ninguém esconde a preocupação. O frio persiste, a chuva não cai e já se adivinha a grave seca que este ano vai consumir o País. Noutros tempos, era um problema prioritário dos agricultores. Agora, quando os agricultores já começam a ser espécie em vias de extinsão, a calamidade também nos encontra mais pobres. Atinge os animais, as pessoas – regiões inteiras – e traz a ameaça da fúria dos incêndios no período estival.
Até os incêndios são maiores do que outrora. Mesmo que tenham aumentado os fogos postos, a verdade é que os serviços de protecção à floresta e de combate a incêndios nunca tanto como agora revelaram a incapacidade funcional para reagir ao flagelo. Porque, como já aqui escrevemos, todos os fogos começam da mesma maneira num espaço de um metro quadrado. Alastram, ou não, conforme a capacidade de reagir de imediato. Mas rareiam as sentinelas no mundo rural. Despovoaram-se os campos, milhares de hectares sem ninguém, socorros excessivamente burocratizados e o País em chamas é o resultado da ausência de reflexão, e decisão, sobre os primeiros instantes em que é possível que a destruição não exceda o controlo dos homens. E este ano, não chove. As albufeiras vão ficar nos limites mínimos, os regatos já secaram, e os riachos, e daqui a pouco alguns rios.
Mas a ameaça tem algo de paradoxal. Dizem os pensadores da economia do futuro que é na água e nos lixos que assentam dois dos pilares estratégicos da riqueza futura dos povos. Na boa gestão da água, na produção de um conhecimento generalizado e culto sobre o seu consumo e gestão. Acredito que assim seja. Mas se no que respeita aos lixos alguns passos temos andado, pese a novela em torno do destino dos resíduos tóxicos, no que respeita à água, o passo é lento.
Este ano que não chove, colocamo-nos, tal como na Idade Média, na dependência dos sortilégios do destino e no queixume repetido e cansativo de que é preciso mais um subsídio para isto, uma desculpa para aquilo, mais um dobrar da cerviz perante Bruxelas, implorando a caridade dos parceiros europeus. E nem um acto, uma decisão, um levantamento de debates claros e duros sobre a necessidade de entender a água como uma riqueza de ouro.
Jorge Sampaio quis alertar o País para isto. Fez um encontro com especialistas e discursou sobre o tema. Mas não é um discurso em tempo de vacas magras e campos ressequidos que alerta consciências preguiçosas, inertes, incapazes de perguntar o porquê das coisas. O que se precisa é de políticas estratégicas para a gestão dos recursos hídricos e de activá-las de forma continuada e coerente. O que se precisa é da construção de um conhecimento colectivo sobre os verdadeiros símbolos da riqueza, ‘desbanalizando’ o valor da água. O que se precisa é de despertar deste letargo para o qual já Antero de Quental alertava nos finais do séc. XIX com a profecia de que este País não iria lá sem uma ‘revolução da fome’.
O que se precisa é de entregar à escola, um programa de educação para o que de essencial nos une, libertando o consumo dos mitos acessórios à verdadeira riqueza.
Este ano não chove. E adivinham-se as desculpas para o futuro que aí está para chegar: Pois, isto aconteceu porque tivemos um ano de grande seca, e repetem-se os lugares comuns que justificam estados de alma mas não resolvem um problema essencial, conformados com a maldição dos céus ou com o fatalismo deprimido.
Ao menos que se aproveitasse este tempo para limpar leitos de rios, linhas de água, bacias hidrográficas. Porque também se sabe da grande probabilidade de fortes inundações lá para Outubro/Novembro. Para que não se repita a desculpa que tudo se deveu às cheias e, por isso, Bruxelas tem que ajudar, etc.,etc. Este ano não chove. E nós ficaremos mais pobres. Cumprimos o nosso destino de pedintes.
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