Há oito dias, por desfastio ou ‘ponte’, 120 deputados da nação faltaram às votações parlamentares e deixaram a Assembleia sem quórum. Até 24 de Abril, terão de justificar a ausência, o que não será difícil, visto que, reza o regimento, a palavra do deputado faz fé.
Estas brincadeiras costumam animar a Imprensa, que vê nelas o proverbial pretexto para debater a “descredibilização” da classe política. Naturalmente, o povo também se excita com o tema, mas usa palavras menos requintadas. Para o vulgar cidadão, os deputados e os políticos em geral não passam de uma cáfila de pulhas e calões, capazes de fantásticos malabarismos para cumprirem o desígnio natural da espécie: não trabalhar.
Até aqui, nada de mais. Insultar políticos faz parte das competências (e das obrigações) cívicas. Curiosa é a forma como o insulto é invariavelmente endereçado. Eles, os políticos, são bandalhos. Eles, os políticos, são desprezíveis. Eles, os políticos, sabem-na toda. O ‘eles’ marca a definitiva e radical distância entre o português médio e qualquer exemplar da tenebrosa corja. No entender da ‘rua’, das duas uma: ou os políticos são originários de Neptuno ou constituem uma limitadíssima elite, educada desde o berço para enganar a ralé e mandar nela. Nenhuma das teses resiste à simples observação. Em primeiro lugar, e apesar do aspecto de alguns dos actuais deputados, a possibilidade de o Parlamento estar tomado por extraterrestres é, por definição, absurda. Em segundo lugar, o aspecto de quase todos os actuais deputados demonstra que a possibilidade de o Parlamento ser dominado por uma elite é ainda mais absurda.
Estranhamente, não parece ocorrer a ninguém que os políticos não caem do céu e que são gente comum, a qual carrega para a política os tiques, os vícios e as ambições alimentados na ‘sociedade civil’. Talvez porque fosse aborrecido aceitar que, em democracia, as fraquezas dos eleitos são, grosso modo, as fraquezas de quem os elege. Ou porque talvez fosse embaraçoso admitir que o resmungo popular face à óbvia desvergonha da dita classe dirigente não deriva de um sentimento de injustiça, mas de inveja.
Apesar dos queixumes, os portugueses não querem que os políticos sejam sérios, rigorosos e diligentes. No fundo, os portugueses apenas querem ser políticos. Ou, no mínimo, usufruir das respectivas benesses: salário jeitoso, ajudas de custo, horário reduzido e flexível, ‘pontes’ amplas, faltas frequentes e justificáveis, um pedaço de influência, um vestígio de poder. Na velha terminologia do Parque Mayer, eis o lendário ‘tacho’, que milhões de cidadãos só condenam enquanto se vêem excluídos dele. A boa notícia é que, aos poucos, milhares de outros deixaram de o condenar. Perguntem-lhes porquê. Depois perguntem-lhes como. E aprendam.
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