Os séculos de cristandade instalaram a Igreja, prenderam-na a esquemas e modelos culturais e perdeu-se o sopro de uma forma nova de ser na sociedade e na história: peregrinos e estrangeiros. A tradição monástica chamava a esta vivência xeniteia. A palavra grega xenos, que deu origem a xenofobia, significa estranho, estrangeiro, como hóspede. A Igreja primitiva tinha consciência de ser ela própria hóspede de Israel, ramo enxertado na oliveira que representa Israel (Carta aos Romanos 11). Mas em Paulo ganha bem consciência de ser chamada à dispersão entre as nações, a viver em terra estrangeira, a viver a universalidade como necessidade do outro, como diáspora, como dispersão, como "exílio". A vocação da Igreja é viver entre as nações sem jamais se identificar com uma etnia, ordem sócio--cultural ou teoria económica estabelecida.
2.Falar hoje de estrangeiros é, certamente, evocar o problema do acolhimento aos migrantes, ricos na diversidade de língua, cultura e religião, de costumes e de ética, o que pode inspirar medo. Isso seria permanecer ao nível de que estrangeiro é o outro. Ora, os membros da Igreja, ao celebrar São Paulo, não podem esquecer que eles próprios são estrangeiros e peregrinos. Estamos a caminho, à procura, somos estranhos. Aliás, a cultura do século XX, como profecia laica, demonstrou que até somos estranhos a nós mesmos (Edmond Jabés, Elias Carnetti, Júlia Kristeva). O fenómeno e o direito universal da migração atinge hoje uma intensidade e uma plenitude de situações jamais vistas. A busca de melhores condições de vida ultrapassa barreiras, graças à rápida globalização. A recessão económica cria ameaças. A tentação de controlar os fluxos de entrada e a clarificação de políticas de integração acentuam-se.
Convém que as autoridades percebam que a integração é um processo e não uma condição prévia. Podem assinar um papel, sem que signifique valores assumidos, pautas culturais interiorizadas, conflito pessoal e social superado. Requer-se apoio e formação. É fundamental não só evitar o "culturalismo", uma vez que as culturas são construções humanas em evolução, acolhedoras de diversos contributos, mas também importa afastar fantasmas, perder medos e ultrapassar preconceitos e adoptar o respeito mútuo.
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