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Deve ser o famoso “estado de graça”. O Governo do eng. Sócrates ainda nem existe e alguns especialistas já exaltam a reserva que preside à respectiva formação. Na noite eleitoral, o dr. Vitorino dera o mote, ao garantir todo contente que o novo Executivo não se faria na “Comunicação Social”. “Habituem-se”, disse ele, e foi o delírio. Desde então, a visão do dr. Vitorino a atravessar uma resma de repórteres repetiu-se, as declarações dele também, e o delírio idem.

Noutros tempos, como por exemplo no de Cavaco, atitudes assim seriam levadas à conta de arrogância, recusa do direito à informação, etc. Agora é a própria Imprensa que aprecia ser desprezada, e que faz desse desprezo a medida da competência governamental. Até certo ponto, a toleima compreende-se. Provavelmente, os jornalistas fartaram-se dos excessos de franqueza do “santanismo”, quando qualquer assunto, incluindo uma simples “sesta”, merecia comunicados oficiais e conferências de última hora. Trinta declarações, desmentidos e contra-desmentidos diários cansam, e, por comparação, o silêncio actual consola.

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Mas o alívio não justifica tudo. Principalmente não justifica a grotesca história das “expectativas”. À primeira vista, a teoria parece ser a seguinte: quanto mais secreta é a constituição do Governo, maiores são as “expectativas” (ou as “esperanças”) em volta da “equipa” que aí vem.

Sucede que, excepto na cabeça de optimistas profissionais e socialistas desempregados, não há expectativas nenhumas. Que se saiba, o povo não acampou à porta do Rato, com merenda e cobertor, impaciente por conhecer “os nomes”. Mesmo porque, mais coisa, menos coisa, os nomes serão aqueles de que se fala: António Costa, Alberto Costa, Correia de Campos, Mariano Gago, Vara, “Tozé” Seguro e o supracitado Vitorino. Estas alminhas, ou outras semelhantes no lugar delas, não são a redenção do País: com dois ou três penduricalhos adicionais pelo meio, são o prolongamento natural (?) do desmazelo “guterrista”, após um interregno para a retórica liberal e a prática melancólica de sempre.

A bem dizer, o eng. Sócrates nunca enganou ninguém. À parte as proverbiais promessas de campanha (uma obrigação disparatada que nem ele sonhou cumprir), o homem chegou ao poder envolto não em nevoeiro mas num vazio sem precedentes na nossa democracia. A discrição em curso e as tontas “esperanças” em seu redor apenas reflectem esse vazio. Se o eng. Sócrates mantivesse o elenco governativo em segredo durante os próximos quatro anos, poucos poderiam condená-lo. E muitos deveriam agradecer-lhe. Esperanças? Falso alarme: só uma gravidez histérica.

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