Há ainda os profetas profanos que prevêem acontecimentos e querem condicioná-los. Um intelecto tão laico como Maquiavel dividiu--os não em verdadeiros e falsos, mas entre armados e desarmados. Quanto aos profetas desarmados, o florentino não lhes augurou um grande destino, sendo frequentemente escarnecidos até ao termo da sua reputação ou expulsos da cidade. Acabam perseguidos e derrotados. Vejam o caso do Bandarra…
Na prática não há profetas contemporâneos. Os últimos caminharam pelos territórios de um futuro paraíso terrestre e atribuíram a maior importância ao tipo de organização social e económica. Foram divididos em utópicos e científicos, uma cedência aos tempos modernos. Depois do fim do mundo bipolar ficámos entregues ao pensamento único cuja dogmática usa púlpitos ressonantes. Não admira pois que os pensamentos desviantes sejam minoritários mas apetecíveis. Acresce que a sociedade portuguesa ficou cativa dos empréstimos contraídos e debate-se com a sua impotência perante o tempo e o modo do serviço da dívida e as suas repercussões na liberdade do Estado e no bem--estar da população. Está pois ávida de novas soluções. Infelizmente, alguém apareceu com umas ideias elaboradas sobre uma nova metodologia de negociação da dívida, apresentou-se indevidamente com as credenciais de um órgão da ONU. Foi entrevistado pelo Expresso e as propostas assim publicadas foram transmitidas por uma agência de notícias internacional, a Reuters, a 15 de Dezembro. Neste contexto, baseei o ‘Cabo Submarino’ de 22 de Dezembro em declarações que me pareceram relevantes, com a devida citação da fonte, embora eu tivesse concluído (profeticamente?) que "Nem tudo será realista nessas propostas". Até essa data, ninguém tinha denunciado publicamente Baptista da Silva. Lamento porém o mal-entendido que possa ter alimentado entre os leitores do CM.
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