Enquanto éramos crianças, coleccionávamos cromos de futebolistas. Quando somos adultos, e candidatos à Presidência da República, coleccionamos intelectuais. Aparentemente, as cadernetas começam a encher-se. Um destes dias, a candidatura de Manuel Alegre anunciou a gloriosa aquisição de 52 (cinquenta e dois!) intelectuais de uma só vez.
Os cromos vão desde os escritores Jacinto Lucas Pires, Rui Zink e José Jorge Letria até aos cançonetistas Paulo de Carvalho, Jorge Palma e Francisco Fanhais.
Contrariados por tão repentino avanço, os apoiantes de Mário Soares apressaram-se a divulgar as figurinhas já conquistadas e exibiram, entre outros, os nomes de Paula Rêgo, João Cutileiro e Carlos Mendes. Francisco Louçã contra-atacou com o prodigioso Boaventura Sousa Santos, a fadista Mísia e Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés. Jerónimo de Sousa garante os cromos do PCP, que hoje infelizmente são escassos e, a um observador desprevenido, parecem resumir-se a Urbano Tavares Rodrigues. Já Cavaco, coitado, não participa da corrida. Com ou sem cartão de militante, não há volta a dar-lhe: o homem é o candidato da direita e toda a gente sabe que a direita não possui intelectuais.
Intelectual a sério é de esquerda e, de acordo com o dicionário, é “pessoa de grande cultura, que tem gosto predominante pelas coisas do espírito.” Assim à primeira vista, a definição evoca-nos logo um Jacinto Lucas Pires, uma Paula Rêgo ou, evidentemente, um Zé Pedro. O que o dicionário não diz é que os intelectuais têm o dom de determinar a opinião das massas, através de um processo de contágio que a ciência ainda não conseguiu explicar.
De uma extraordinária forma, a decisão de Francisco Fanhais em apoiar Manuel Alegre leva a que milhares de cidadãos comuns, desprovidos de “grande cultura” e obviamente sem acesso às “coisas do espírito”, se sintam impelidos a imitar o padre-cantor e, assim, a votar no candidato-poeta.
Cada intelectual tem o seu público, cada cidadão tem a sua figurinha preferida. Eu próprio não seria um eleitor provável de Mário Soares, mas confesso que me custa imenso discordar da opinião de Carlos Mendes: quem compôs ‘Amélia dos Olhos Doces’ está muito mais bem preparado do que eu para decidir sobre o que é melhor para o País.
Claro que, como nas cadernetas da bola, a partir de determinado momento as colecções de intelectuais demoram a avançar, dado que algumas figurinhas teimam em sair repetidas. Saramago, por exemplo, ‘sai’ com frequência. Abrunhosa, idem. É então que se procede à estimulante fase de troca: dás-me um escultor e eu dou-te três cantores; troco o teu arquitecto pelo meu romancista.
A vantagem, face aos cromos de jogadores, é que esta colecção não se arrisca a ficar inacabada por causa daquela figurinha difícil: os nossos intelectuais podem merecer muitos epítetos, mas de difíceis não têm nada.
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