Grelha de Verão. Grelha de Inverno. Até 1996 era assim que funcionava a televisão portuguesa: de seis em seis meses, as televisões anunciavam – em pacote – as novidades que aí vinham. Os senhores directores, quando o jogo ainda tinha regras, pegavam nas cartas, batiam-nas na mesa e era como se dissessem: "A minha estação aposta nisto, o programa ‘x’ vai para o ar às tantas horas, tem não sei quantos episódios e é assim que acreditamos ir ter sucesso. E mais: resulte ou não, é com isto que vamos viver no próximo meio ano." A primeira semana da nova grelha era sempre, lembro-me bem, um regalo – programas a estrear todos os dias, novos formatos, novos cenários, novos apresentadores, tudo novo.
O que resta, hoje, desta forma (limpinha, transparente, respeitadora) de fazer televisão? Nada. A contra-programação estava a caminho, entrou sem pedir licença e nada voltou a ser como dantes. Os atropelos, os golpes baixos e a introdução de uma nova "lei" – a do vale-tudo! – transformaram a concorrência televisiva num autêntico "campo de batalha", onde a única hipótese é tentar "matar"… para não ser "morto". Já alguém se esqueceu de quando, há pouco mais de dois anos, os jornais televisivos (anunciados para as 20 horas) podiam começar às 19h59, às 19h58, às 19h57, às 19h56 ou, até, às 19h55? Alguém acha normal uma novela ter 300 episódios? Alguém acha normal uma novela estrear às nove da noite, passar para o meio da tarde e acabar às três da manhã? Alguém acha normal uma novela fracassada ser reduzida a mini-série ou uma mini-série de sucesso ser esticada para novela? Alguém acha normal Portugal estar anos a fio sem um programa de música e depois estrearem dois ao mesmo tempo? Alguém acha normal copiar cenários?
Hoje, com a maior das facilidades, faz-se um telefonema e alicia-se o comentador de guerra que está do outro lado da barricada. Hoje, com a maior das facilidades, passa-se uma tarde em festa na Praça da Figueira, em directo, com as vedetas do ‘Saber Amar’ só porque a concorrência estreia a sua novela nessa noite. Hoje, por tudo e por nada, apela-se a um episódio "inédito" para mais logo à noite. Hoje mente-se descaradamente quando se anuncia a "estreia" de um filme que já vimos tantas vezes. A mesma gala pode ser vista três vezes no espaço de um mês. Hoje, um qualquer Zé Maria pode apresentar um programa de TV, pode ser "estrela" nos espaços de Informação. Hoje, uma Gisela pode levar ao corte de relações entre estações e produtoras de televisão. Hoje, uma televisão pode começar a promover um programa que nunca será exibido. Hoje até se fazem antestreias (?) de novelas! Hoje, o Fernando Rocha pode contar as anedotas mais picantes. Hoje, alguém acha que os rodapés é que são bons e amanhã todos acham o mesmo. Hoje estreia ‘A Ana e os 7’, na TVI. Amanhã estreia ‘Mulheres Apaixonadas’, na SIC. Quer dizer, isto é o que eles dizem…
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