A vaga de incêndios que tem vindo a devastar o País não deixou ninguém indiferente. E suscitou as mais díspares reacções e opiniões.
Desde as tradicionais sacudidelas de água do capote até às espontâneas manifestações de solidariedade. Sem pôr em causa a nossa total solidariedade para com as verdadeiras vítimas deste caos, julgamos que a espontaneidade e força destas reacções serviu sobretudo para mascarar graves responsabilidades.
De um modo geral esqueceu-se que em Portugal 85% da floresta pertence a privados que nada fazem para a preservar e se limitam a esperar que as árvores cresçam para as cortar e vender, se entretanto um louco incendiário que deles não goste lhes não chegar um fósforo. O que põe em dúvida imediatamente o dever especial de intervenção directa estatal (à primeira vista indiscutível) na prevenção das calamidades que ciclicamente a assolam e na reparação dos danos.
Pede-se, agora, que se não politize uma situação que requer uma forte resposta nacional, mas quem o faz joga à defesa, porque com isso apenas se mascara a leviandade das medidas (ou da falta delas) que tornaram a catástrofe mais grandiosa.
Esquece-se a inexistência de uma política séria que obrigue os proprietários a evitar situações limite. Esquecem-se os "iluminados" que provocaram a obsolescência dos meios de ataque aéreos, e promoveram também a extinção da Comissão Nacional Especializada em Fogos Florestais. Os que promoveram a suspensão do programa-piloto de disseminação por todas as corporações de bombeiros de Grupos de Intervenção Permanente especializados em prevenção e combate imediato. Os mesmos ainda que interromperam o processo de progressiva integração e coordenação dos bombeiros e da protecção civil.
Daí que a nossa revolta mais genuína não possa deixar de ser motivada essencialmente por se ter posto em perigo e sacrificado as vidas e haveres de populações. Pelo pânico que viveram e o sofrimento a que foram submetidos aqueles que são, provavelmente, os únicos inocentes em todo este processo em que a caldeirada de responsabilidades e interesses (o casamento da produção florestal com a chamada indústria dos fogos) é de tal modo complicada e variada que difícil se torna acreditar no que quer que seja.
Porque os proprietários podem ter sido (e foram) vítimas das péssimas condições meteorológicas e da acção de incendiários dementes, mas em última instância terão, conjuntamente com as autarquias e governo, a responsabilidade pela transformação da floresta num barril de pólvora. Sem que ninguém se tenha incomodado seriamente com isso senão quando as vítimas passaram a ser outras e o País ficou em estado de choque.
E nesta medida, como se demonstrou, a incapacidade dos responsáveis políticos foi uma afronta de uma dimensão confrangedora. Não fosse a abnegação dos bombeiros e populações e teríamos tido uma verdadeira catástrofe humana.
Uma outra questão é a de saber para onde irão agora as ajudas, nomeadamente as que nos oferece a UE através da Federação Europeia de Peritos em Indemnizações.
Num País em que o Estado supostamente liberal e feroz defensor da iniciativa privada não tem políticas de fundo sérias para nada e vive do imediatismo enganador e há muito tem vindo a preparar um lavar mãos em relação a tudo o que é fundamental (cuidados de saúde, ensino, segurança social, pensões de reforma e tudo o mais) e manda os cidadãos fazer seguros para acautelar o futuro, é pura e simplesmente imoral pedir-se que esse mesmo estado proteja os interesses dos proprietários da floresta gastando milhões na protecção que eles se recusam a fazer. Ou compensando-os por danos de que também são responsáveis para que nada lhes doa e tudo continue na mesma.
É a insanável contradição entre o elogio da privatização redentora e o lancinante apelo à intervenção do Estado quando as coisas dão para o torto.
Mesmo tendo em conta que pela sua natureza a floresta é um bem público e desempenha uma função que vai muito para além da mera satisfação de interesses económicos daquele "grupo ecológico" ‘sui generis’ que dela depende, parasitando-a, mas sobrevive sempre. Com ela pujante e viva ou morta e em cinzas.
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