Começou ontem, em Bagdad, uma conferência que, aparentemente, nunca poderia existir. Senta pela primeira vez, frente a frente, embora só no âmbito de embaixadores, a Síria e o Irão, acusados por Washington de promoverem terrorismo em solo iraquiano, e o acusador, os Estados Unidos.
Até agora, a política americana era a de não falar, pelo menos directamente ou em público, com Damasco e Teerão. A partir de agora, é de não fugir a essa fala, se a mesma lhe for pedida. A terceira fase, especula-se, é a de falar com iranianos e sírios, por iniciativa americana e a alto nível.
Primeira lição: como se dizia na semana passada sobre a visita do vice-MNE norte-coreano aos EUA (para “regularizar” as relações entre países tecnicamente em “não-paz”), nada é para sempre em política internacional. É a diferença entre o poder e a metafísica. Na fase ‘realista’ das políticas externas, há cem anos explicava-se que os estados têm interesses, não têm amigos. Ou seja, não têm também inimigos eternos.
Mas as transformações civilizacionais adicionaram algo à velha máxima: num sistema internacional que se norteie pelo direito, pelas ‘boas práticas’, pela diplomacia e pela não ingerência, os estados têm também princípios.
Espera-se que estes estejam presentes, na dificílima mesa iraquiana. Primeiro princípio: não matarás inocentes. Segundo: não apoiarás terroristas. Terceiro: não ocuparás terra alheia.
CAPITÃES AMÉRICA
Bush visita aquela América Latina que considera um caso de sucesso económico e de “razoabilidade” política: Brasil, Uruguai, Guatemala, Colômbia e México.
Estão ali os dois estados mais povoados do continente, dois outros que sobreviveram a décadas de guerrilha, guerra civil e narcotráfico e um que, teimosamente, é apontado como ‘a Suíça’ local. Montevideu continua a atrair mais intelectuais do que militantes. Hugo Chávez, por seu lado, decidiu uma contra-cruzada, transportando em si aquilo que a revolução cubana já não pode, quer ou sabe fazer.
Na Argentina (aparentemente excluída do ‘eixo da moderação’), falou a um comício que gritava “Gringo, Fuera!” O ‘ianqui’ dos anos 60 era menos xenófobo, mais eis um sinal dos tempos. Bush tenta convencer os visitados de que os EUA não possuem intenções imperiais.
Chávez quer provar o contrário: que antes, as companhias de bananas americanas organizavam golpes de Estado e que hoje se limitam a comprar políticos. Tudo numa altura em que morre a personagem de banda desenhada (criada em 1941 por Jack Kirby e Joe Simon) o ‘capitão América’.
MATÉRIA DE PACTO
Menos 20% de emissões poluentes, mais 20% de produção de energias renováveis, lâmpadas ‘inteligentes’ e um largo etc. de declarações, mais ou menos (im)políticas, onde Chirac tentou até colocar o nuclear. A UE quer ser levada a sério na luta pela salvação da Terra. Todas as estratégias são, porém, a vinte anos, ou mais. Se tudo é tão mau como se diz, chegará? De qualquer forma, eis o pacto possível.
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