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Com Bush a ser 'derrubado' por manifestantes em Londres, a al-Qaeda a destruir e a matar na Turquia, e militares da GNR portuguesa a viverem horas de perigo no Iraque, o que qualquer um gostava de saber era a quem vai a História dar razão. Nada está determinado. Mas o futuro também não vai ser uma questão de quem tem mais força, mata mais ou junta mais apaniguados. É preciso reflectir, pensar a nossa sociedade, e registar que a barbárie, as trevas e a opressão acabaram por ser sempre derrotadas pelos valores do Homem.

Para a reflexão pode contribuir uma efeméride que hoje se assinala. Há 40 anos, por volta do meio-dia, numa grande avenida de Dallas, no Texas, duas ou três balas, com mistérios ainda não desvendados, mataram o presidente norte--americano John Fitzgerald Kennedy. Eleito em 1960, numa votação renhida, tornou-se, com 43 anos de idade, no mais jovem presidente de sempre nos Estados Unidos. Não chegou a cumprir o mandato para que foi eleito, mas ficou gigante na História. Hoje, mais do que nunca, repete-se a frase que lançou como desafio aos seus concidadãos – os americanos devem perguntar-se o que podem fazer pelos Estados Unidos e não o que os Estados Unidos podem fazer por eles – e há ainda quem se entusiasme pela ideia de Nova Fronteira que, no seu tempo, era o lançamento da conquista do Espaço.

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A imagem de Kennedy é feita de poder, dinheiro e sexo e alimenta-se de carisma, intriga e tragédia. Mas mesmo com Fidel Castro ainda a mandar em Cuba, mais de 42 anos depois da desastrada invasão da Baía dos Porcos, é fácil descobrir no mundo mudanças impulsionadas pelo seu agudo sentido da História, as suas ideias contra a discriminação racial, pelos direitos cívicos, a autodeterminação e democratização dos povos. A liberdade, a confiança e a solidariedade são base do desenvolvimento e melhoria das nossas sociedades.

John F. Kennedy influenciou profundamente os jovens dos anos 60. E não precisaram sequer de o cumprimentar, como Bill Clinton provou com fotografia, antes de estar oito anos na Casa Branca, e o cinema mostrou com a mito-personagem ‘Forrest Gump’. Kennedy queria uma sociedade mais livre e mais justa, mas como recorda o historiador e seu próximo conselheiro Arthur Schelsinger, ele agia com pragmatismo e não como um idealista. A sua acção radical contra o racismo nos estados do Sul apontava a uma sociedade americana com mais êxito. Não era um ideal ao estilo "eu tenho um sonho", de Martin Luther King, de quem Kennedy não era sequer amigo, ao contrário do que muitas vezes se faz crer.

Na sua acção política, Kennedy apostava primeiro na análise e no pensamento. Nos tempos de jovem senador procurava muitas vezes a discussão com as pessoas mais interessantes da famosa Universidade de Harvard, perto da sua cidade natal. E não o inibia nessas conversas académicas o facto de ser neto de um dono de cabaré que aproveitara a fortuna para casar o filho com a distintamente educada filha do 'mayor' de Boston. O importante na política é pensar os valores. A História dá sempre razão a seguir.

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A crise e o delinear de perspectivas exige hoje a mesma atitude. Como se costuma dizer, é preciso ver o Mundo para além do nariz: se Bush lançou a invasão do Iraque pelo controlo das reservas de petróleo, está perdido; o Iraque só pode ser farol de democracia no meio do vulcão islâmico com instituições livres, crescimento económico e uma sociedade solidária. À al-Qaeda e à sua lógica de terror e morte está reservado o opróbrio da História, como aconteceu a todos os que quiseram vencer com destruição, qualquer que fosse a bandeira, de raça, religião ou classe. Quanto a Portugal, só será importante se souber salvaguardar os seus valores seculares de nação de paz, confiança e convivência; de quem com a Cruz de Cristo deu mundos ao Mundo e soube espalhar por toda a parte valores perenes, embora não indemes às crises. Não há violência redentora, só há redenção com o Homem.

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