Francisco Moita Flores

Professor universitário

Lembranças antigas

30 de outubro de 2006 às 17:00
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Quando ingressei na Polícia Judiciária, vai para 30 anos, um dos directores de Lisboa da PJ era Mário Gomes Dias. Também foi meu professor de Processo Penal e julgo que não o vejo há mais de 25 anos. Era homem de poucas palavras. Quem não gostava dele acusava-o de vaidoso, quem hesitava complementava esta adjectivação afirmando que também era competente.

Embora nunca tivesse privado com ele, fazia parte de outro grupo, talvez o maior, que desvalorizava a putativa vaidade e admirava o grande magistrado que irrompera pela PJ, bem formado, justo, rigoroso, activo.

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Nesse tempo não existiam profissionais de Polícia nos órgãos de direcção, ainda não existia a ASFIC (órgão sindical), as viaturas eram poucas, as escutas difíceis de conseguir, a rede de transmissões da PJ não cobria o território, o sangue novo que começara a entrar paulatinamente depois do 25 de Abril ainda não era suficiente para animar uma instituição anquilosada, que vivera a Ditadura amesquinhada pela polícia política. As grandes investigações faziam-se com esforços sobrenaturais, exigindo criatividade aos investigadores, criação de redes de ‘bufos’, trabalho de rua de dia e noite. Ainda não tinham chegado os computadores, a recolha de informação obrigava a mergulhar em bares soturnos, discotecas malcheirosas, pensões e residenciais pestilentas.

Estávamos no tempo em que o paradigma era a violência. As FP 25, as FP 27, o bando do Zé da Tarada, do Delfim, do Manel Alentejano, do Dillinger. Só este pequeno grupo aqui apontado assaltou à mão armada milhares de instituições e assassinou mais de uma centena de pessoas. Era um tempo duro. Quem trabalhasse para além das horas normais e ultrapassasse a meia-noite ganhava 200 escudos (um euro) e não havia dia da semana em que isto não acontecesse. A violência habitava os nossos quotidianos. A violência criminal e a violência das nossas próprias vidas, vividas no limite.

Era frequente, altas horas da noite, Gomes Dias aparecer nas instalações da PJ, saber das investigações mais instantes, ele próprio determinar acções e coordenar serviços. Era rigoroso num tempo que exigia rigor. Até para salvar a vida. E os dias eram duros e as noites mais duras do que os dias.

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Das centenas de magistrados que passaram pela Gomes Freire foram poucos aqueles que ali deixaram marcas. A maior parte arrogante, muitos ignorantes e quase todos sem perceber fosse o que fosse de investigação criminal. Limitavam-se a gozar o motorista e a passear lustrosos fatos. Não foi o caso de Gomes Dias nem do director-geral a quem obedecia, o então procurador Lourenço Martins. Também Garcia Marques integrava esta equipa maravilha. Gomes Dias sabia de polícia, de direito e, sobretudo, sabia de investigação criminal. Tinha ‘faro’, coisa vaga que significa na gíria policial acertar nos caminhos da investigação. Em qualquer país do Mundo daria um excelente procurador-geral da República. Em Portugal, foi proposto para PGR adjunto. O seu nome foi reprovado. Está certo!

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