1. Muito se continua a falar de mudanças no futebol português. Esse é, também, um dos fados do defeso. Promessas de bom comportamento, pedidos de unidade dos clubes e/ou das SAD em torno da valorização do futebol profissional enquanto 'indústria' (qual indústria?), garantias de discursos comedidos – e, mais recentemente, 'juramentos' no sentido de se pôr ponto final a megalomanias várias.
Tretas. Já em 2002-2003, mais ou menos por esta altura, achava-se útil promover a sensatez, não falar tanto dos árbitros e das arbitragens e baixar o tom da guerrilha institucional. A tão vincada supremacia desportiva do FC Porto, construída a meio da prova, evitou males maiores. Mas a polémica continuou e promete continuar, porque passou mais um ano sem que o Benfica tivesse conseguido alcançar o objectivo de ser campeão nacional (93-94 já vai longe), estamos em temporada de centenários e de diversas inaugurações de estádios. Esta é uma época particularmente sensível, porque chegar ao fim em primeiro lugar pode assumir uma repercussão irrepetível. Este é um campeonato que 'todos' querem ganhar, mas é um campeonato que, sinceramente, coloca maior pressão sobre o Benfica (vai a eleições em Outubro) e de forma muito especial sobre Mourinho, que vai querer 'internacionalizar' de modo definitivo o seu currículo agora bem mais visível.
Dadas as promessas de regeneração é bom de ver que o adiamento do jogo inaugural da Superliga 2003-2004, que colocava o Belenenses e o Est. Amadora frente-a-frente, em razão de um protesto apresentado pela Naval, não corresponde ao arranque mais desejável. O que nasce torto tarde se endireita. Nesta medida, pode dizer-se que o campeonato já começou da pior maneira. Fica tudo para a última hora. Mas o que é mais interessante é que quem critica os regulamentos são aqueles que os aprovam. É por isso que venho dizendo que o futebol em Portugal está sem comando. Ora é a FPF que anula a Liga ora é a Liga que anula a FPF, nomeadamente através dos seus órgãos jurisdicionais. Significa isto que os mecanismos de autoregulação do futebol não funcionam, ou seja, a bola indígena já não é capaz de se regenerar a si própria, como provou à saciedade nos últimos anos.
2. A SuperLiga 2003-2004 reúne um FC Porto consolidado (por isso, favorito); um Benfica que transporta rotinas importantes da época passada, apesar de ser uma equipa incompleta e em permanente instabilidade; um Sporting em reconstrução, o mais atrasado, nesta matéria, em relação aos restantes candidatos.
3. O Benfica ainda não atirou fora a possibilidade de entrar na Liga dos Campeões, esgotada que está a primeira mão da eliminatória com a Lazio, mas perdeu, em Roma, grande ocasião de fazer história no seu regresso à Europa. O Benfica não foi tão mau nem tão bom como muitos defenderam. O Benfica foi exactamente a projecção da sua imagem actual: uma equipa intranquila, desequilibrada, com bons jogadores para o contra-ataque e para as bolas paradas, mas muito vulnerável na sua estrutura defensiva. O Benfica é uma equipa rápida, capaz do melhor e do pior. Porque o Benfica ainda não conseguiu evitar a lógica da 'aquisição pela aquisição' e é por isso que possui nas suas fileiras elementos com manifesta falta de classe.
4. Não é o caso de Roger, que aumentou a dinâmica dos ‘encarnados’ quando entrou frente à Lazio, esquecendo-se, todavia, que estava num jogo de futebol; não de andebol. Não se percebe, contudo, que tenha sido tão valorizada a sua 'participação' no terceiro golo dos romanos, quando o Benfica começou a perder o jogo logo aos 15 minutos, através de um lance que não se pode consentir.
5. Camacho quer jogadores mas dispensa Roger. Quer isso dizer que, a partir de agora, o espanhol reclama seis aquisições?! Afinal, o que quer Camacho? Aquilo que disse antes ou depois do encontro com a Lazio? Sendo muito certas as apreciações do espanhol, às vezes ele próprio provoca a pergunta: Camacho é treinador do Benfica ou do Sporting? Será que Camacho é o treinador do FC Porto e ninguém se apercebe disso?
6. A dispensa de Roger envolve motivações estritamente desportivas? Será que o facto de o jogador ser representado por Paulo Barbosa e ter ingressado na Luz pela mão de Vítor Santos não assume nenhum tipo de relevância? Ninguém acredita que, num jogo em que o rendimento de Zahovic ficou muito perto do zero, Roger possa ter sido dispensado por causa de um infeliz lance de futebol. É que, em matéria de classe pura, o Benfica não tem mais de três jogadores que lhe cheguem aos calcanhares. Pode colocar-se a questão do rendimento, mas o Benfica acaba de dispensar um dos seus melhores elementos.
7. Se me perguntarem, numa discussão académica, quem poderia ser um bom substituto de Deco, no FC Porto, no caso da sua saída das Antas, responderia: Roger. Tenho a forte convicção de que Roger transformaria o seu rendimento no FC Porto e o Benfica pode estar a oferecê-lo de bandeja.
8. As 'aquisições' do Benfica continuam a fazer manchete. Apesar dos avisos de Camacho, continuam as fugas de informação. Ontem, podia ler-se n'A Bola: 'operação de dimensão extraordinária de Luís Filipe Vieira, que se encontra em Belo Horizonte para negociar com o Cruzeiro dois jogadores com características defensivas para o Benfica. Me liga, vai. Realmente extraordinário.
ruimmsantos@netcabo.pt
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