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Eu sei, dele não haverá feitos como antigamente. Mas é o único sobrevivente da maior corrida de sempre: os 100 metros de Tóquio, 1991, em que seis atletas correram abaixo dos 10 segundos e Carl Lewis bateu o recorde que ainda dura. Aquele que foi prata em Barcelona e Atlanta, esconde a careca rapando o resto do cabelo. Ainda tem a silhueta de quando apareceu ao mundo (no momento em que o seu país nascia). Veio para que eu possa dizer: “Eu vi-o.” Fredericks ganhou a sua série. Não parou, ainda, ontem.

A infelicidade é vir de Port-of-Spain, capital das ilhas Trinidad--Tobago, ter por trás prata e bronze em Mundiais de juniores e falhar mesmo antes de correr. Na pista 9, de mais uma eliminatória dos 100 m., Marc Burns, 21 anos, não aguentou a pressão. Por duas vezes saiu a destempo, foi desqualificado. Virou as costas ao estádio desolado e entrou pelo túnel negro, de volta às Caraíbas. Sem um único passo válido.

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O destino é Obikwelu. Um miúdo nigeriano que desembarca em Portugal para uma corrida de juniores, há 10 anos. Deserta e faz o que fazem os imigrantes clandestinos, desaparece na Natureza. Anda dois anos nas obras no Algarve e deixa cair aos colegas, nas pausas do cimento: “Sou atleta, corro.” Os outros sorriam: pois, pois, Francisco, os pretos são todos atletas... Um dia, a dona de uma vivenda que se construía, escutou-o: Corredor? O meu marido está ligado ao atletismo... Vejo-o, ontem, português dos quatro costados do seu maillot. Pista 2 e irritado, porque ele já merecia a 4 ou a 5, no meio, onde os melhores são colocados e fazem as corridas acabar em cunha. Seja a 2, então. E a pista 2 desasa toda a eliminatória: Obikwelu ganha-a com facilidade que pasma. À tarde, já na pista 4, repete a dose, bate o recorde nacional e promete tudo para hoje.

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