A história é simples: Nani ‘era’ representado pela ‘agente FIFA’ Ana Almeida, uma ‘tainha’ no mar dos ‘tubarões’ dos empresários. O vínculo de representação terminaria em 2008. Nani, que já era um nome referenciado nas camadas jovens do Sporting, começou a dar nas vistas na equipa principal dos ‘leões’ e a crítica assinalou, amplamente, os dotes do rapaz. A pouco e pouco começou a perceber-se que tipo de jogador Nani é: tem uma habilidade fantástica, pode jogar em qualquer uma das alas ou pelo meio e remata bem. Vai necessitar de elevar o seu ritmo de jogo, ‘crescer’ muscularmente e ‘disparar’ para a baliza com maior convicção. Está naquela fronteira ténue entre o céu e o inferno. Tanto pode evoluir para o plano dos grandes jogadores mundiais como se pode perder por mau aconselhamento ou prematuro deslumbramento.
O problema destes miúdos que ‘sabem jogar à bola’ é, na origem, a sua fraca sustentação sócio-cultural. O Sporting protege-o na medida do possível mas é muito difícil dar-lhe um ordenado compatível com a vontade do jogador, perdão, do seu novo e renomado empresário. Neste momento, aufere 11 670 euros, de acordo com um contrato de cinco anos firmado em Abril de 2005 (notícia CM de ontem).
É muito, é pouco? É aquilo que as partes envolvidas acordaram há cerca de 22 meses. O problema do Sporting, que não é novo, resume-se a isto: por mais que pague a Nani e por mais que o jogador (ele próprio) se sentisse satisfeito com a respectiva remuneração, o ‘super-empresário’ Jorge Mendes, o seu novo representante, achará sempre que o jovem talento poderá ganhar mais fora de Portugal. E porquê? Porque, na verdade, sentindo que Nani tem futebol ‘para além de Badajoz’, não é muito difícil encontrar, mesmo neste futebol de múltiplas crises (que reflectem a crise económica dos respectivos países, e não reflectem mais porque há dinheiros a circular dos quais não se conhece a sua verdadeira proveniência) clubes capazes de pagar mais do que aquilo que ele aufere ao serviço do emblema de Alvalade. E uma transferência considerada ‘muito boa’ no âmbito do mercado do futebol português (entre os 8 e os 20 milhões de euros) corresponde naturalmente a uma bela compensação para quem esteja a intermediar o negócio.
Se o FC Porto vendeu Paulo Ferreira ao Chelsea por 20 milhões de euros (!!!), o Sporting, em tempos diferentes, vendeu Figo, Simão e Quaresma ao Barcelona por tuta e meia, com a agravante de ‘ter deixado’ escapar Simão para o Benfica e Quaresma para o FC Porto. O mesmo se deve dizer da operação Cristiano Ronaldo-Manchester United. O que coloca vários tipos de questões aos responsáveis do Sporting:
1.Enquanto pertencem aos ‘leões’ por que razão os citados jogadores não rendem mais?
2.Que tipo de jogadores o Sporting está a formar?
3.Que tipo de negócios o Sporting está a realizar?
Foi o empresário Jorge Mendes quem intermediou o negócio entre o FC Porto e o Chelsea, no caso de Paulo Ferreira. Houve dinheiro a rodos para distribuir. Todos ganharam ‘à grande’. Por que razão estes negócios são possíveis envolvendo o FC Porto e são mais difíceis quando envolvem jogadores do Sporting e Benfica? Porque os dirigentes destes clubes são ‘totós’? Porque os jogadores destes clubes não valem tanto? Ou porque os empresários têm bitolas diferentes e nalguns casos são eles próprios diferentes?
Os empresários são necessários? Para jogadores de ‘cabeça fraca’, são. Para Gary Neville, ‘capitão’ do Manchester United, não são. Mais: os empresários, que querem fazer dinheiro a qualquer custo, pouco se importando naturalmente com a estabilidade das equipas e dos jogadores, estão a ajudar a atirar o futebol para o buraco.
Pagam-se verbas absolutamente incomportáveis. O futebol está superinflacionado e só resiste perante os balões da sua ‘economia paralela’.
Quem é que quer andar de triciclo se lhe prometem andar de avião particular?
Futebol sem empresários seria um futebol mais limpo. Mas isso pressupunha uma intervenção firme da FIFA (que não lhe interessa) e uma profissionalização a sério dos departamentos de futebol dos clubes ou das SAD, e isso dá muito trabalho e é um apelo risível à competência. Para a mentalidade portuguesa dos ‘brandos costumes’ e do ‘pato-bravismo’, mais vale continuar a viver de expedientes.
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