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Jogo Sporting-Braga, substituição neste último. O jornalista que relata o jogo pela televisão, avisa: “Vai entrar o Beckham do Minho”. Eu esperei um rapaz de passes precisos e livres mortíferos. Mas o futebolista que entrou foi vulgar. Só chamava a atenção pela forma como comemorava os seus falhanços: levava as mãos dramaticamente à cabeleira farta. Foi então que percebi. Ele era o ‘Beckham do Minho’ por causa das madeixas louras. Já quando entrou em campo, entrou como Alexandre pela Pérsia dentro, a trote, todo esvoaçante. Como ele só sabia o que o filme mostra – o actor Collin Farrell todo cheio de Pantène e amaciador – ele deveria pensar que Alexandre foi O Grande por lutar contra as pontas espigadas. E de Beckham julga-o bom porque muda de penteado todos os dois dias. Tive, assim, durante um jogo em que até o nome remete para os pés, futebol (nunca pensei ser obrigado a lembrar isto: ‘foot’, pé, ‘ball’, bola: o jogo simples do pé na bola), de aturar a crina de um modelito passeando-se na ‘passerelle’. O problema é que está tudo assim. Confunde-se o acessório com o dever ser.

Um outro filme, em exibição em Portugal, explica talvez a causa: os heróis reformaram-se. O filme ‘The Incredibles – Os Super-heróis’ é um desenho animado. É bom, só mesmo com um desenho vamos lá. O filme ‘Os Incríveis’ avisa sobre o pior da democracia: o nivelamento por baixo. Os super-heróis, gente com dotes extraordinários, são obrigados a despir a capa que os faz voar porque nós, que somos incapazes disso, nos ofendemos com sua real superioridade. Ora isso está mal. Nós precisamos com urgência de recuperar o direito a nos sentirmos fascinados e deslumbrados por quem merece a nossa admiração.

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Voltando, brevemente, ao futebol: eu não posso aceitar que o Benfica que teve Coluna e tem Simão ponha a jogar um Karadas de quem eu sei isto e basta: não joga mais do que eu, quando tinha a idade dele. Então, a minha reacção com o futebol, que é ir para as bancadas para encher os meus olhos de maravilha, fica seca. Matam o futebol quando fazem alinhar nas equipas, que deveriam ser só de heróis, gente vulgar.

O mesmo, mas mais grave, na política. Deixem--me lembrar: presidente de Portugal foi Mário Soares e primeiro-ministro Cavaco Silva. É um patamar, não é? Se eu quiser comparações falsas, faço como o pobre diabo do jogador minhoto, imitando Alexandre e Beckham pela cabeleira, e não pelo que importa: ser grande guerreiro ou grande futebolista. E, seguindo o truque, eis-me igual a Soares: tenho a mesma pronúncia em francês. E até sou melhor que Cavaco: como bolo-rei com mais elegância. Que com esses truques eu ouse ser um político como Soares ou Cavaco é um abuso.

Um abuso que eu ainda não cometi mas outros já.

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