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Há muito que está previsto o abandono de Manuel Vilarinho no Benfica. A dúvida reside em saber se, de facto, alguma vez lá entrou. Pode Vilarinho argumentar com a lógica do semi-presidencialismo. A verdade, porém, é que Vilarinho tem optado por uma nova filosofia de gestão desportiva que é o nulo presidencialismo.

Na festa de inauguração da Casa do Benfica de Aveiras de Cima Vilarinho disse o suficiente para reafirmar aquilo que já todos sabíamos: que não concorrerá a novo mandato para a liderança da Direcção encarnada. É óbvio que, a tantos meses de distância de eleições, a declaração de Vilarinho, apesar de não conter qualquer novidade, não caiu bem. Um erro estratégico, uma vez que poderia despertar alguns nichos de oposição semi-adormecidos. Elementar, meu caro Watson.

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No ‘site’ do Benfica veio a emenda. Da boca de Vilarinho a dialéctica do costume: "fui mal interpretado. Nunca mais digo nada (...) com jornalistas presentes". Enfim, tanto trabalho e tanta confusão não sei para quê. Aliás, quando Vilarinho entregou os votos de seis milhões de benfiquistas a Durão Barroso é óbvio que também estávamos perante uma situação de más interpretações. Vilarinho, na verdade, tem sido muito mal interpretado: ele só quer ir embora, com o mínimo prejuízo possível, porque acha que já fez aquilo que os sócios lhe exigiam no momento da sua eleição contra Vale e Azevedo: restituir a credibilidade ao grande clube da águia. Vilarinho talvez nos pudesse explicar a razão a partir da qual, ao fim de seis meses de mandato, já parecia de saída, soterrado perante as fortes ambições de Luís Filipe Vieira. Ora, se me permitem, acho que essa estória da credibilidade é uma grande treta.

Com Azevedo na prisão todos os erros cometidos pela gestão do futebol do Benfica, a certa altura entregue a Filipe Vieira, a quem o empossado accionista José Veiga foi ajudando a resolver alguns problemas, naturalmente salvaguardando os seus limites de altruísmo, foram sempre imputados aos inimigos do Benfica, mesmo que se tratassem de benfiquistas.

Jesualdo Ferreira levou com a crise em cima. As mexidas no plantel não pararam. A credibilidade também tem a ver com a ética – a tal ética de que o ministro Arnaut nos fala e que aliás está consignada no actual programa de Governo através da criação de um Conselho de Ética – e sobre ela temos de convir que o Benfica pós-Azevedo, ao contrário do que sempre quer fazer crer Vilarinho, não está inocente. Não está inocente porque o Benfica-clube não se pode dissociar do Benfica-SAD e há um estilo pró-trauliteiro que esta SAD ainda não se livrou, apesar das melhorias que foram introduzidas na altura em que Camacho veio render Jesualdo Ferreira.

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Luís Filipe Vieira tem tentado diminuir a quantidade das suas aleivosias, João Malheiro, magnânimo porta-voz dos assuntos benfiquistas baixou o tom e o protagonismo e daí resultou que António Simões pudesse ter outra visibilidade – e Simões é, para além do mais, um homem polido, bem-educado, com ética própria, imperfeito como todos os seres humanos, mas em todo o caso mais próximo de um conceito de imagem que faz falta ao futebol do clube. O Benfica com Vilarinho só é mais credível do que sem Vilarinho na medida em que o primeiro possa travar, se é que pode, os excessos de Filipe Vieira.

Agora é a vez de Luís Filipe Vieira consumar a sua estratégia. Não hostilizar Vilarinho. Cobri-lo de encómios e salamaleques. Para que, em nenhuma circunstância, Vilarinho possa contrariar a passada larga de Filipe Vieira em direcção à presidência totalitarista. O comandante da SAD já disse: "Benfica deve estar grato a Manuel Vilarinho". Só falta Vilarinho dizer qualquer coisa como isto: o Benfica não só deve estar grato a Filipe Vieira como deve apostar tudo nele para a consumação da modernização do clube. Sim, porque a avaliar pela máquina publicitária que acompanha os encarnados para todo o lado (se não há manchete arranja-se!), o Benfica chegará à Liga dos Campeões, vencerá a final e, com o estádio novo, jamais sairá do pódio da Europa.

É preciso perceber o que pensa Fonseca Santos de tudo isto, ele que tresanda a candidato, e entender também se Camacho, treinador legitimamente ambicioso, não levará o Benfica a gastar o que não tem. Porque não me venham com mais histórias de patrocinadores. As receitas do Benfica estão todas condicionadas a prazo, os miúdos não têm onde treinar e a equipa principal (temporariamente) onde trabalhar. O optimismo e a ficção têm limites.

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