1. Há pessoas que só têm passado, outras só presente, outras só futuro. Outras há que fazem umas combinações estranhas entre passado, presente e futuro, confiadas ou na falta de memória colectiva ou numa inteligência, afinal, furtiva.
Guterres agarra-se ao presente ao achar que os portugueses já não se lembram do seu magistério de facilidades. Santana Lopes agarra-se ao presente e ao futuro através do capital de carisma acumulado por Cavaco Silva no passado, provando que, em política, os objectivos são mais importantes que a coerência. Bagão tenta dar coerência à estratégia do primeiro-ministro, entrando em contradição com a sua antecessora e com o rumo traçado por Durão Barroso. Não admira que tenha entrado num pico de ‘stress’, porque não é fácil passar do oito para o oitenta e, ainda por cima, justificar-se perante os economistas e, sobretudo, levar com um banho de água gelada do governador do Banco de Portugal.
A coerência é um bem essencial na vida e, quer na política quer no futebol, há muita gente a passar de galho em galho, mudando, até, de cor. Neste aspecto, ninguém pode apontar nada a Pinto da Costa: coerentíssimo, mesmo que não se concorde com muitos dos seus procedimentos. Sempre azul e branco, sempre fulminante para com os seus adversários. Quanto aos métodos, essa é outra temática.
O País está assim: incoerente - e isso é mau para a sua afirmação enquanto Estado que quer manter uma relação saudável com os seus cidadãos e contribuintes.
2. A semana foi dominada pelo FC Porto-Sporting e respectivo rescaldo. Dois protagonistas maiores: Ricardo e Rochemback.
Quanto ao primeiro, não há muito a dizer: ‘frangou’ no lance do primeiro golo, ninguém fez falta; Jorge Costa agiu como tinha de agir, naquelas circunstâncias. Ricardo igual a si próprio: bem entre os postes; muito mal fora deles. Quanto à sua reacção às críticas, a selecção está a pô-lo nervoso mas há coisas às quais não se deve dar tanta importância. Se o Ricardo anda incomodado com o Baía, com as críticas e com as desculpas que procura dar para as suas intervenções menos felizes é natural que, em campo, não se mostre completamente tranquilo. Essa é a sensação que transmite. Portanto, acalme-se. Porque, tranquilo, a probabilidade de dar menos ‘frangos’ aumenta teoricamente. E, por outro lado, com a aquisição dessa tranquilidade, escusa de dizer barbaridades como a que pronunciou a seguir ao jogo do Dragão: “Saímos todos daqui de cabeça erguida”.
Quanto ao segundo, o caso fia mais fino, porque Rochemback mandou o seu treinador ‘tomar no cu’!
Eu digo (e repito) ‘tomar no cu’, porque cu é uma palavra que vem no dicionário (do latim culu) e significa “ânus; nádegas; extremidade da agulha oposta ao bico”.
Achei interessante que, noutras situações, já tenho lido, até em primeira página, obscenidades que achava impublicáveis e, agora, a propósito, do ‘mal-entendido’ de Rochemback toda a gente reproduziu, ofendidamente, ‘Vai tomar no c...”.
Ora é bem de ver que o ‘mal-entendido’ advém do significado que se quis dar às palavras do brasileiro porque, consultando o dicionário, está mesmo a ver-se que Rochemback apenas queria dizer [a Peseiro] ‘vai tomar na extremidade da agulha oposta ao bico’.
O grande pecado de Rochemback é que não conseguiu reproduzir, totalmente, calculo, o sentimento dos sportinguistas. Estes, naquela altura, deveriam estar a pensar:
“Ó Peseiro, vai tomar ar...”
Ou
“Ó Peseiro, vai tomar chá...”
Ou
“Ó Peseiro vai tomar conta dos miúdos”.
É que, na verdade, Peseiro deveria ter entrado disúrico no Dragão e entrou com a extremidade da agulha oposta ao bico um pouco - como dizer? - apertada.
O Sporting não exibiu personalidade e afundou-se nas suas debilidades, algumas das quais crónicas.
Aquele meio-campo mete nervos a um morto: Rogério não se mexe, Custódio joga numa área limitada, Hugo Viana não é exactamente um exemplo de rapidez, Rochemback também não está solto.
Tirar Douala para incluir Pinilla, com uma hora de jogo e 1-0, não lembraria nem ao Diabo. Entenda-se: ‘ressuscitar’ Pinilla no Dragão era tão inverosímil quanto enterrar Arafat em Jerusalém. Mas há ainda quem acredite em milagres...
Tirar Rochemback para meter Pedro Barbosa, a 18 minutos do fim, ainda é mais exasperante. Peseiro merecia ser multado? Não é preciso ir tão longe, mas se pensarmos que Pedro Barbosa necessita de pelo menos 15 minutos em campo para aquecer, isso quer dizer que Peseiro acreditou na possibilidade de Barbosa dar a volta ao jogo em apenas 3 minutos. Ora, perante os factos, aconselha-se Peseiro a rever o seu manual de milagres. Deus é generoso mas convém não abusar.
3. A atitude de Rochemback é grave mas a indisciplina, no futebol português, normalmente compensa.
Veja-se o que aconteceu aos três jogadores do Nacional apanhados numa discoteca, a poucos dias da estreia europeia do clube madeirense. Colocou-se a culpa nos polícias-que-eram-do-Marítimo e... ponto final.
É claro que o Sporting precisa mais de Rochemback do que Rochemback do Sporting, mas há limites para tudo. O brasileiro nem se deu ao luxo de dizer directamente que estava arrependido e que foi infeliz. Justificava-se, no mínimo, um pedido de desculpas público ao seu treinador. O que vimos, afinal? Um seu representante dizer que se tratou de um ‘mal-entendido’. E os jornais a dar conta de uma multa que o jogador vai (?) ter de pagar.
As consequências desta permissividade, comum a outros emblemas, apurar-se-ão mais tarde. Um episódio destes pode dar cabo de uma época. Aguarde-se, então, mais umas horas para se perceber como é que Peseiro vai exercer a sua autoridade no Sporting.
4. Alguma coisa não bate certo no ‘caso Robinho’. Tudo estranho: as declarações do jogador e de Pinto da Costa, as notícias do Benfica e do Real Madrid, a história do rapto da mãe e Robinho a dizer que quer vir embora. Estranho, muito estranho.
5. De sublinhar a tentativa de João Loureiro na aproximação a Dias da Cunha. Espera-se pela resposta.
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