Uma obsessão manifestada no primeiro milénio ou no julgamento divino que os fabricantes de ‘O Dia em que a Terra Parou’ não prescindem de explorar, seja através da renovação da Arca de Noé ou da praga de insectos egípcia.
Embora se trate, supostamente, duma história global, nada de global é revelado. E a ‘Verdade Inconveniente’ não é exibida. Apenas inferida. Assume-se que já todos sabem da aniquilação global do planeta. Mas não são apresentadas provas da destruição maciça. Não se vêem estragos, devastação ou extinção. Parte-se do princípio que a Humanidade está consciente da sua faceta de escorpião. E que nem sequer é esse autoconhecimento que levará à mudança.
Hollywood está tão imbuído deste espírito do holocausto que apenas concebe deuses castigadores. Demasiado humanos. A premissa deste filme transmite que os planetas com vida são tão raros que os extraterrestres (apresentados como muito mais avançados que nós) não podem consentir que arruinemos a Terra. Logo, têm que nos matar. Ou seja, a única alternativa que estes seres conhecem é a humana. Extermínio. Afinal, este filme só admite soluções, seres e evoluções completamente antropocêntricos. E nada animadores.
Apesar de ser um remake, ‘O Dia...’ parece que nem sequer foi escrito, tentando escapar através dos efeitos especiais (que, afinal, são poucos) e à custa de Keanu Reeves, que já poderá ser considerado o herói masoquista deste século. Outros filmes recentes têm igualmente explorado a autodestruição, mas padecendo desse mesmo problema. Se em ‘O Dia...’ a Justiça vem do Além, em ‘O Acontecimento’ (Shyamalan, 2008) é Gaia que acciona o massacre. Procurando sobreviver e vingar-se, a Natureza faz com que os humanos percam os instintos de autopreservação e se suicidem. Mas o filme afunda-se nos lugares comuns do 'amor vence tudo' e do conceito xamânico de Terra-terrorista.
‘O Dia...’ não honra nem o original (Robert Wise, 1951) nem a causa que pretende defender. Aliás, se Hollywood ainda lucra com a destruição do planeta, já o espectador ganha cada vez menos.
ILUSÃO DE MOVIMENTO
Uma sociedade à beira do colapso é retratada no policial de ficção científica ‘Soylent Green’ (Richard Fleischer, 1973). Metáfora ou não, pior é a solução encontrada: comem-se uns aos outros, matando dois coelhos de um cajadada só: fome e sobrepopulação.
QUEDA LIVRE
Com cenas de suicídios semelhantes às de ‘O Acontecimento’, ‘A Caixa Kovak’ (Daniel Mónzon, 2006) aposta numa trama paranóica à Philip K. Dick, apesar de descambar num romance delicodoce. O bom da fita são mesmo os tombos das vítimas da conspiração.
OUTRO PASSO
O extraterrestre (David Bowie) de ‘The Man Who Fell to Earth’ (Nicolas Roeg, 1976) não quer destruir a Terra, mas salvar o seu planeta, devastado por uma seca. Porém, o seu destino é o mesmo: vê-se refém da ganância terráquea. Com remake previsto para 2009, espera-se que não siga as pegadas deste ‘O Dia...’
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