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Os políticos fazem as leis, os juízes limitam-se a aplicá-las e os cidadãos sabem que as devem cumprir. Esta banalidade do Estado de Direito, esta espécie de teoria geral da civilização, durante longos anos assumiu contornos perversos e cruéis, desenhou um autêntico quadro de horrores na nossa democracia.

Sempre vivemos, aliás, com a sensação de que a democracia nunca chegara verdadeiramente à Justiça. O 25 de Abril abriu a escola aos pobres, a saúde tornou--se universal, serviços essenciais como a luz eléctrica e saneamento básico passaram a ser assegurados em quase todo o território nacional.

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Na Justiça não. Aqui, a linha entre poderosos e gente comum nunca foi apagada, nunca se perdeu aquela sensação terrível de uns serem impunes e outros desamparados.

Nunca tivemos, afinal, um Estado de Direito, mas um Estado rendido a um sistema que chegava a demorar décadas para julgar. Isto quando não arquivava ou, pura e simplesmente, deixava os processos prescreverem.

O aviltante julgamento das FP-25 de Abril (em meados de 2001) e a prescrição de muitos casos de "colarinho branco" (em Novembro do ano anterior) foram apenas dois exemplos extremos da inoperância da justiça portuguesa: os crimes de sangue da "esquerda terrorista" e os crimes económicos da "direita delinquente" ficavam sem punição.

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O mesmo acontecia com os crimes de peculato, praticados por agentes públicos que não tinham ideologia - o que quer dizer que tanto usurpavam à esquerda como à direita, ou simplesmente amanhavam-se ao centro, que nada acontecia, ninguém era importunado.

Felizmente, nos últimos meses, algo de novo está a acontecer naquela gigantesca máquina de lavar, onde entrava toda a podridão - colarinhos brancos e sacos azuis, facturas falsas e falências fraudulentas, corruptores e corrompidos - e de onde tudo de lá saía sem mácula.

São, é certo, apenas uns sinais. Meia dúzia de autarcas acuados. Uns quantos dirigentes do futebol obrigados a explicarem-se. Agentes policiais detidos por extorsão. Diplomatas, médicos e estrelas de TV perseguidos por suspeitas de pedofilia.

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Constituem, porventura, a ponta de um icebergue. Alguns até vão provar a sua inocência. Existe o risco de o país se transformar num palco persecutório de inocentes. O perigo de o populismo invadir o território da justiça.

Mas é o preço a pagar pela transparência. A Justiça também serve para absolver. O problema é que, até hoje, nem os inocentes têm a oportunidade de serem julgados como tal.

O "caso Carlos Cruz" deixa várias gerações deste país num estado de absoluta perplexidade, porque ele faz parte do imaginário dos avós, dos pais e dos filhos da Nação. Mas, paradoxalmente, a sua detenção deixa-nos sonhar. Talvez queira dizer que, no nosso sistema judicial, a "sopa do nada" pode ter chegado ao fim.

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Aquele caldo de cultura nacional, em que a culpa está habituada a morrer solteira. Onde, perante um escândalo revelado, o desfecho era sempre uma vergonha.

Burlas, fraudes, falsificações, corrupções e promiscuidades entre poderes públicos e interesses privados deram manchetes de jornais. O crime económico existe, até dizem que cresceu, mas não entra nas salas de tribunal. Aqui vivem os intocáveis. Será que esta mitigada "operação mãos limpas" à portuguesa também acabará por bater à porta deles?

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