Em geral, o Poder dos Estados engloba várias formas, desde o militar, o político, passando pelo económico-financeiro.
O Poder do Estado do Vaticano apenas pode ser associado a valores espirituais.
Os realistas apenas acreditam naqueles poderes, mas os idealistas creem que na gestão das coisas do Mundo os princípios, as referências e os valores também contam.
É aí que está a força da Igreja e do seu Papa.
Mas, a escolha do nome Francisco, sendo uma opção predominantemente eclesial, é também política. É eleger um santo que mudou as narrativas da Idade Média ao cortar com a escolástica, ao privilegiar a santidade em vez da exibição do Poder e da Força, ao considerar a pobreza como a referência a merecer privilégio, o constituir-se como um pós-moderno na defesa da natureza, na medida em que o amor aos homens estava incluído no amor ao conjunto da vida. A opção não é por isso nem neutra, nem anódina.
Num período de turbulência no espaço cultural ocidental, a ação do Papa e da Igreja pode representar a expressão da necessidade de uma mudança de práticas e de visões. Esta ação pode vir a cavar clivagens já presentes mas ainda não suficientemente assumidas no plano cultural. Foi na Argentina, terra natal do Papa Francisco, que fez escola em tempos peronistas a referência aos "descamisados".
Está a admitir-se que é por estes e para estes que a ação papal se vai orientar. Erro profundo. Um Papa olha para todos por igual, mas, se todos os homens são iguais perante Deus, não se deve menosprezar a palavra Papal. Ele não tem regimentos, mas a sua palavra pode valer mais do que isso, além de que é jesuíta e foi a Companhia de Jesus que evangelizou a América do Sul. Foi ela que, pela sua ação, desencadeou o furor de algumas Cortes. Recordem-se o Padre António Vieira, Manuel da Nóbrega ou os jesuítas dos Planaltos onde viviam os Guarani. Por tudo isso, a gestão pontífica do Papa Francisco pode surpreender. Deus queira!
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