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Lytton Strachey, um dos melhores biógrafos do século XX, era gay assumido. Objector de consciência, recusou-se a combater na I Guerra. No tribunal, o juiz rosnou-lhe: 'O que faria se um soldado alemão tentasse violar a sua irmã?' Strachey lambeu os beiços: 'Metia-me entre eles!' Nos EUA, em 1964, a Suprema Corte aboliu a protecção contra a calúnia no caso das figuras públicas. No ano passado, saiu cá o livro ‘As Mulheres de Hitler’.

Também em 2008, Salazar se erigiu quase num ícone pop, do ponto de vista editorial, de biografias a romances. Na série da SIC, o contexto histórico não passou de uma iluminura. Numa das mais célebres autobiografias, Santo Agostinho exclama: 'Ó Deus, dai-me a castidade – mas não já!' Ora, dir-se-ia que, segundo a série de TV, o ditador monástico de Santa Comba ocultava um fauno priápico. Confesso que é um pouco desconcertante (para não falar na dor-de-cotovelo) assistir Salazar a brincar aos médicos com Soraia Chaves.

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A série propõe que o Presidente do Conselho afinal não caiu da cadeira, mas da banheira – mas o clima é tão lascivo que mais valia ter sido de uma hidromassagem. ‘A Vida Privada de Salazar’ acaba por ‘branquear’ o autocrata, ao humanizá-lo como um tipo que não podia ver rabo de saia (enfim, como todos nós?). Bem, Diogo Morgado sem dúvida foi branqueado: para encarnar o ditador idoso e encanecido, tomou uma espécie de banho de farinha. Mas, como a interpretação dele é eficaz, percebemos que o Salazar rapaz e o Salazar ancião não são farinhas do mesmo saco. Daí que a resposta seja: não, a série não branqueou o ditador – independentemente do seu rigor histórico.

No caso de Hitler, verificar que ele não era uma aberração da natureza, e que até apreciava gatinhos, não nos provoca alívio, mas calafrios. A monstruosidade é uma das faces do Homem. No caso de Salazar, o facto de adorar fazer festinha em Soraia Chaves mostra apenas que tinha bom gosto. Ao concentrar-se na braguilha do ditador (um Kennedy-Clinton), a série da SIC – paradoxalmente – acaba por lembrar: supostas virtudes privadas não implicam necessariamente virtudes públicas. Ou o contrário.

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