O Benfica venceu o Boavista na jornada inaugural do Torneio Centenário e, ao contrário do que tinha acontecido em Vila Real de Santo António, diante do Belenenses, deixou muito boa impressão em campo. Na véspera, o técnico Camacho tinha reafirmado aquilo que dissera durante o longo processo que levou à renovação do seu contrato - que o Benfica precisa de jogadores para completar a reestruturação do seu plantel, mais concretamente quatro jogadores e foi, inclusive, duro com a sua Administração quando aparentou querer dar uma lição de gestão aos dirigentes, nomeadamente no momento em que declarou que as transferências não se pagam com dinheiro na mão. Todas as equipas pagam a 3-4 anos". Isto para além da salomónica sentença segundo a qual "eles [SAD] têm uma maneira de trabalhar e são eles que têm de contratar. Eu não posso fazê-lo". Os adeptos benfiquistas não podem deixar de estar confundidos: até o Cristiano marca, duas vezes de cabeça (!), junto ao Guadiana e ao Douro, isto é, a Norte e a Sul, e nós andamos aqui a fazer uma figura de totós por causa de um defesa esquerdo?! O Benfica arranca uma exibição daquelas no Bessa (onde vamos jogar com a Lazio e com o próprio Boavista, no jogo inaugural da Superliga, já daqui a dias) e o Camacho quer mais 4 jogadores?!
Questão actual: o Benfica precisa ou não de mais e melhores jogadores para constituir o seu plantel?
A minha opinião é de que precisa, sob a óptica estritamente desportiva, e vou tentar explicar porquê.
Em primeiro lugar, porque o Benfica não se demarca do objectivo de ser campeão e, nessa perspectiva, tem de olhar em redor e perceber que o FC Porto continua forte, eu diria fortíssimo, a jogar um futebol que só está ao alcance de um punhado de equipas na Europa.
O maior problema não é, pois, a oposição interna, numa competição macrocéfala, chata no sentido em que os candidatos ao título são sempre os mesmos e o campeonato só consente a eclosão de 'outsiders' por períodos relativamente curtos, mas a verificação de que, na SuperLiga portuguesa, compete uma equipa (o FC Porto) que exige para si própria aquilo que as grandes equipas europeias também exigem. Equivale isto a dizer que, se o Benfica tem, internamente, a forte oposição do FC Porto, num ano em que tenta a entrada efectiva na Liga dos Campeões, tendo para isso que ultrapassar a Lazio, possui, também, oposição externa, aleatória, mas em tese muito mais difícil de ultrapassar.
Quando Camacho diz que 'compreendo tudo, espero também que me compreendam' coloca as coisas no seguinte plano: percebo que tenham uma montanha de problemas para resolver, que não haja dinheiro para mandar cantar um cego, mas eu acedi a prorrogar o meu contrato mediante a 'garantia' que teria uma equipa mais competitiva para tentar vencer o FC Porto e entrar na Liga dos Campeões.
Os treinadores querem sempre o melhor para as suas equipas e não têm de se preocupar com passivos e dívidas a terceiros. Se o clube que, ocasionalmente, servem tiver de estoirar, paciência. O Benfica precisa, de facto, de um defesa esquerdo e não são os dois golos de Cristiano que me vão fazer mudar de opinião. A verdade, porém, é que o Benfica anda a contratar defesas esquerdos há um bom par de anos e não consegue acertar. É um deitar de dinheiro à rua inacreditável que só se justifica quando as pessoas não sabem o que andam a fazer e agem por influências ou interesses mal definidos. Na minha carta aberta a Filipe Vieira chamava a atenção para o facto de FC Porto e Sporting terem vendido para depois poderem comprar. No último dia de Julho Camacho veio defender o mesmo princípio. Por isso não acredito que se chegar à Luz uma boa proposta para a venda de Tiago, o Benfica não venda o jogador alegadamente porque Camacho não quer. Está tudo invertido: a SAD é que devia estabelecer os princípios perante Camacho, e não o contrário. O Benfica podia perfeitamente compensar a eventual saída de Tiago, comprar o tal 'defesa esquerdo' e reforçar o ataque que, pelo meio, face à profusão de lesionados, alguns dos quais com futuro duvidoso, parece-me claramente deficitário. Como se viu no Bessa, Simão e Geovanni (este, finalmente, em grande forma) tornam o Benfica temível sobre as alas, detentor de uma velocidade se calhar sem paralelo no campeonato português. Porém, o Benfica não pode jogar toda a temporada em contra-ataque, quando vai defrontar na Superliga adversários que vão adoptar uma atitude de espera e se vão fechar no seu espaço defensivo. A época é longa e se o Benfica neste momento consegue fazer uma boa equipa, com 8-9 jogadores de bom nível, como será amanhã, quando houver castigos e mais lesões? No final, os dirigentes gostam muito de se desculpar com o número de lesionados, porque não fazem como o 'FC Porto de Mourinho' que tem alternativas de qualidade para todos os lugares.
Última nota porque, por hoje, não há mais espaço: num clube de liderança afirmativa seria impensável encaixar aquilo que Camacho já disse ou insinuou sobre a incapacidade de resposta ou a incompetência dos seus dirigentes. O Benfica não pode ser um tapete.
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