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Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington representam-se a si mesmos nas duas: eles aparecem escrevendo o argumento da série e, depois, na estória que estão a escrever. Assim, enquanto argumentistas, vêmo-los discutindo com o produtor ou o realizador cenas que vimos ou veremos. A teia dos dois novelos não termina aí, pois as cenas da narrativa principal (a viagem dos dois pelo país, numa paródia quer da Odisseia de Homero, quer do género dos "road movies") acabam por originar uma terceira estória ao transformarem-se em cenas da própria filmagem. No melhor momento, os protagonistas são obrigados à roleta russa, mas o clímax da cena é interrompido com a discussão entre os actores por causa da força das chapadas que um terceiro lhes dá.

A complexidade aumenta também se a ordem de desligar a câmara não é cumprida, ou quando o sempre excelente Nuno Lopes aparece quer como ele mesmo quer num dos papéis que representa na narrativa principal, confundindo os dois colegas.

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São processos que vêm da literatura. Há séculos que os romancistas se intrometem no curso das suas intrigas. No romance ‘A Amante do Tenente Francês’ (1969), de John Fowles, o autor interrompe a coerência da narrativa dizendo que não estava a controlar as personagens e reescreve-a com alternativas. O dramaturgo Harold Pinter, na adaptação cinematográfica (1981), desenvolveu esta intrusão da "realidade" autoral na ficção com um romance paralelo entre os actores que estão a filmar o próprio filme da estória do tenente e da amante na época vitoriana. No final, a actriz deixa o actor, e ele, ao vê-la afastar-se, grita o nome dela — não da personagem actriz, mas da personagem vitoriana que ela representou. As duas narrativas vão tendo vida paralela até se encontrarem nesse ponto. Em Odisseia, as narrativas estão sempre a pisar-se uma à outra e a criar desdobramentos.

Odisseia é uma comédia, não de "piadas", mas de situações e diálogos. O arranque foi lento, para habituar o espectador à metaficção (a ficção que fala de si mesma) e à mise-en-abyme (a duplicação interna da obra); no terceiro episódio já o argumento complexo se concretiza agilmente, com inteligência e eficácia.

A FRAUDE DO BPN NA SIC: MUITO BARULHO PARA TÃO POUCO

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O excesso de promoção da reportagem da SIC em quatro partes sobre a fraude do BPN prejudicou-a. O interesse do elaborado trabalho justifica-o, mas pouco trouxe de novo. Foi mais um resumo histórico e explicativo, que não conseguiu obter novidades. Promovida com tanto alarido, esperava-se investigação de fôlego que acrescentasse ao sabido. Vi muito metajornalismo: o repórter Pedro Coelho entrevistado várias vezes pela SIC, aberturas do Jornal da Noite sobre os "capítulos" da novela-reportagem, etc. E, se referiu o julgamento do BPN, nada relatou do que foi dito até agora em 90 sessões. A construção foi algo confusa, mas Coelho poupou-se desta vez nos seus excessos retóricos em linguagem metafórica e poética.

EM CADA ESQUINA UM ANÚNCIO

Em 2012, a TVI ocupou 30% da emissão com publicidade e autopromoções. Menos na SIC, menos ainda na RTP 1 por imperativo legal. Se somássemos a promoção de produtos e marcas em muitos programas (reality shows, novelas, talk shows, magazines e até noticiários), a percentagem de publicidade nos três canais seria bem maior. A comercialização do nosso quotidiano prossegue.

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