Na galeria de livros sobre crianças na história da minha memória, retenho três, oriundos do neo-realismo português e brasileiro, que tocaram a minha maneira de entender o mundo. ‘Os Esteiros’ de Soeiro Pereira Gomes, ‘Os Capitães da Areia’ de Jorge Amado e ‘A Infância dos Mortos’ de José Louzeiro, infelizmente não publicado em Portugal. Têm várias comunhões estas obras. Estiveram todas proibidas pela censura, em todos são as crianças os actores centrais da trama narrativa e crianças marginalizadas, vivendo entre o crime e a clandestinidade, urdindo laços de solidariedade e crendo numa ordem exterior, e quase sempre em conflito com a ordem moral ideologicamente dominante. Numa dedicatória poética mas que é a síntese do seu livro, Soeiro Pereira Gomes haveria de dedicá-lo 'Aos filhos dos homens que nunca foram meninos'.
Mais tarde, já polícia, haveria de ter muitos encontros com estes meninos filhos de ninguém. E reconheço que a necessidade de não ser injusto me levou a um olhar menos romântico e claramente crítico a todas as construções do mundo das crianças como o paraíso da puerilidade e da candura. Quer isto dizer que não admiro sobremaneira a teoria do Bom Selvagem proposta por Rousseau, e agora mais recentemente por militantes exacerbados da causa antipedófila que procuram meter no mesmo saco da inocência e beatitude todas as crianças da Casa Pia.
A reportagem publicada esta semana pelo ‘Independente’ sobre algumas das testemunhas deste processo só é um murro no estômago para quem procurou olhar este caso vestindo uma camisola apressada. Ou a da acusação e, por isso, todos os presos estão bem presos e as testemunhas são meninos seráficos, rudemente expostos à brutalidade libidinosa dos seus violadores, ou a da defesa, cujos argumentos usados para clamar inocências absolutas chegou à brutalidade de inventar cabalas e perseguir obsessivamente aqueles que foram eleitos pelos seus ódios de estimação.
O problema é outro. É o da profunda ignorância sobre o mundo hesitantemente ambíguo entre a inocência e a mais despudorada barbárie em que estes rapazes-testemunhas-vítimas cresceram e se formaram. Não é novidade aquilo que o ‘Independente’ publica. Algumas dessas testemunhas são, apesar da idade, bandidos do pior quilate, mentirosos sem quartel, e gente sem escrúpulo nem princípios. Mas também é possível que outras vítimas não o sejam. Apenas existe uma verdade absoluta. Nem todos são seráficas criaturas e nem todos são bandidos. O erro de Catalina Pestana, que lamento ter errado e ter desiludido aqueles que como eu acreditavam nela, foi querer meter os 'seus meninos' todos no mesmo saco. Afirmou-o bastas vezes. Assim como o pedopsiquiatra Pedro Strecht que neste jornal jurava solenemente que não havia testemunhas prostitutos frequentadores dos locais de prostituição. Afinal, ele sabia há anos – algumas dessas testemunhas eram seus doentes e os relatórios agora publicados não deixam dúvidas. Cometeram o grave erro de vestir uma camisola quando isso não lhes era pedido.
A suspeição está instalada. E sabendo-se que alguns desses 'meninos' já foram testemunhas presenciais noutros processos crime, este golpe de rins do Juiz de Instrução dando agora o dito por não dito e aceitando a videoconferência, por mais sublimes que sejam os seus fundamentos, não vai deixar de ser interpretado pela opinião pública, cada vez mais atenta, como uma manobra para adiar a descoberta formal, liberta do Segredo de Justiça, desta verdade que Jorge Amado e Pereira Gomes há tantos anos nos ensinaram. Julguem-se e condenem-se os culpados de pedofilia. Mas por causa da verdade. É que, por mais que custe aos inquisidores morais dos novos tempos, não existem anjos na Terra. Mesmo que sejam meninos. Ou tão só que apenas sejam filhos dos homens sem nunca terem sido meninos.
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