Um comerciante da praia de Carcavelos disse que não ouviu falar os assaltantes do “arrastão” e, portanto, não sabia a nacionalidade deles. Eu digo-lhe, sem grandes hipóteses de errar: são portugueses. Daquela idade, entre os 12 e os 20 antes, não são turistas de passagem e o tom de pele, escuro, leva-me a crer que não são ‘hooligans’ ingleses. É gente nascida em Portugal, que tem vivido em Portugal e vai continuar a viver em Portugal. Não vale a pena fugir à questão, ela não é como a caspa, que se sacode.
Naquela sexta-feira, uma incompetente jornalista televisiva, no calor dos acontecimentos e no local, interrogou um agente da PSP sobre a agressão policial a uma cidadã na praia de Carcavelos. O essencial da reportagem ao vivo era mesmo sobre essa agressão, por isso chamo incompetente à jornalista. Um repórter, perante um facto tão importante como centenas de bandidos atacarem uma praia, não se dispersa no acessório.
Bastonadas de um polícia a uma cidadã inocente (dou de barato que tenha sido assim) durante confrontos com uma multidão de insurrectos é acessório. Naquela sexta-feira, era irrelevante como informação. Já não é irrelevante (e por isso estou a insistir nela) termos jornalistas incompetentes como a que referi: ela é produto de um ensino obtuso. Até quem devia ser formado para lidar com factos, como os jornalistas, perante um facto maior como uma praia portuguesa ser investida por centenas de bandidos, saliva pavlovianamente o que a sociologia barata lhe ensinou: os polícias são sempre os maus.
O fechar de olhos do comerciante e a obtusidade da jornalista são sintomas da cegueira nacional que conduziu ao incrível de Carcavelos. Portugal segregou aqueles marginais. Digo segregou no total sentido da palavra: criou-os, expeliu-os e pô-los de lado. E digo marginais da mesma forma: gente que está totalmente de fora, de tal forma indiferente aos outros que não se importa de atacar uma praia com crianças, de faca na mão. Já nem vou lembrar os milhões que Portugal vai perder em turismo com esta acção que só tem paralelo ao que sucedeu na ex-Cidade Maravilhosa – os bandidos de Carcavelos estão-se nas tintas para o bom nome e interesses do seu país.
O erro do comerciante que citei é ignorar estes bandidos. Estava convencido que eles viviam só na Cova da Moura ou no Bairro 6 de Maio (ou melhor, em África) e que nunca desciam à cidade. O erro da jornalista é ter treslido os ‘Capitães da Areia’, de Jorge Amado – ora o que é romântico em romances é um pesadelo quando está à nossa frente com uma ponta-e-mola e um olhar frio. E, nestes casos reais, a polícia é necessária. É preciso responder ao comerciante: aquela gente existe cá e tem de ser resolvida cá. É preciso responder à jornalista: os polícias são o bom lado, os bandidos, o mau.
Perante a extensão dos estragos, deve-se cometer a pequena injustiça de tratar aqueles bandidos só como casos de polícia. Eu sei que eles também são vítimas (como Al Capone o foi, filho de imigrante pobre), mas não há tempo a perder. Gente capaz de fazer tão mal aos seus mais próximos – não se importando de sujar a maioria dos negros portugueses com um labéu que eles, trabalhadores, não merecem –, gente que escolhe para atacar a praia dos que nem posses têm para ir para as praias da outra banda, só pode ter tratamento de choque. Com polícia. E esta, é um mínimo, tem de ter a certeza de que a sociedade a respeita.
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