Quando a Bíblia prevaleceu, difundiu-se a ideia de um sétimo dia de repouso (sabat). Afinal, até Deus descansou nesse dia (pudera: acabara de criar a mulher, o que deve ter dado um trabalhão). Do judaico sabat, os cristãos mudaram ou para o pagão sunday (dia do sol, em inglês) ou o pio domingo (domenicus, dia do Senhor, em latim). Curiosamente, a secular televisão subscreve tal conceito. Se já houve quem rotulasse a TV "pastilha elástica para os olhos", nos desopilantes domingos ela tenta ser ainda mais anódina, um chantilly para as pupilas. Porém, o domingo tem outra reputação: a do tédio. É com ambas que a programação lida. Ainda por cima, agora há uma coisa chamada net. Dantes, o domingo na TV era basicamente como os outros dias (entretenimento jornalismo), só que com conteúdos mais desanuviados. Hoje, a interactividade obriga os media centralizados (como a TV) a redefinirem os seus públicos, por um lado dispersados e por outro congregados em comunidades movediças.
A resposta – ainda desconcertada – dos canais é de uma falta de imaginação atroz: trocar os apresentadores (cada vez mais jovens, insuflados e/ou siliconados, de sorriso plastificado, como se a vida fosse um eterno mar de rosas), cuscar cada vez mais os 15 minutos dos VIP e empilhar quadros sucessivos. Palpites para que as frivolidades continuem apetitosas (em doses salutares, o dolce far niente é terapêutico)? Abreviem as durações. Um programa dominical deve durar, no máximo, o tempo entre telefonar, esperar e consumir a pizza ao domicílio – uma horinha. E proíbam aos apresentadores aqueles sorrisos cimentados de orelha a orelha. Se uma pessoa vegeta em casa domingo à noite, é porque o fim-de-semana foi uma caca, ou está demasiado tesa até para o cinema, ou então de rastos que só aguenta clicar no comando. Portanto, não nos venham com euforias!
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