Com rumores se constrói um mundo. Há quem goste apenas de polemizar. Há quem prefira fazer seu, ou do seu grupo íntimo, o que não é. Ou o que a outros pertence.
Manuel Teixeira Gomes, o sétimo presidente da República, nascido há 150 anos, não pode defender-se. Como não quis, nem tinha de defender-se, em 1925, ainda na presidência, quando, episodicamente, um boato se soltava. Resignaria, com pouco mais de dois anos de mandato, na sequência do escândalo do banco Angola e Metrópole, protagonizado pelo trapaceiro, querido dos portugueses, Alves dos Reis.
Homossexual, pedófilo (a designação na época não se utilizava), ou nenhuma das coisas. As certezas morrem com o corpo que se deitou no prazer que conseguiu. E pouco contam para a História. Quantos devassos repousam os ossos nos panteões nacionais?
Manuel Teixeira Gomes viveu como quis. E, já depois de muito vivido, trouxe debaixo de olho, e do seu corpo, uma trabalhadora do seu fumeiro, Belmira das Neves, que tinha 15 anos. Belmira, com 19 anos, dá-lhe a primeira filha, Ana Rosa. E voltaria a ser pai quatro anos depois, aos 50 anos, da segunda filha, Maria Manuela.
A implantação da República obriga-o a abandonar a pacata vida familiar em Portimão, onde nascera. E a separar-se dos negócios dos frutos secos e do amanho das suas propriedades.
Durante treze anos, em Londres, defendeu a República, promoveu o seu reconhecimento internacional, negociou a entrada de Portugal na Grande Guerra, esteve no centro das negociações para a Paz e na criação da Sociedade das Nações, onde chegou a vice-presidente. Ganhou fama e prestígio político. O mesmo que lhe garantiu a eleição para a presidência da República, em 1924. Entediado pela crispação de militares e civis, abandona País e fortuna para nunca mais voltar.
Inteligente, culto, foi um dos grandes criadores literários da primeira metade do século XX. Pela sua obra perpassa uma intensa sensualidade que é quase física, mas também a pulcritude da paisagem algarvia ou mediterrânica, ou a sordidez da natureza humana, que algumas personagens da sua ficção exibem.
Na evocação deste homem, cabe muito e em grande. Foi a mais internacional das figuras da primeira República. E o mais ecléctico algarvio de todos os tempos. Mas não cabe a mesquinhez e a torpeza de insinuações, impossíveis de provar, sobre uma vida que só ele a gastou como quis e era uso.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt