Esta semana, morreu Ferenc Puskas e discursou Luís Filipe Vieira. São dois extremos para mostrar como é vasto o campo onde se move o futebol. Em muitas mais actividades humanas há disso, altos e baixos, Puskas e Vieiras. Mas em nenhuma, só no futebol, os holofotes apontam, naturalmente, para os cimos e também apontam, surpreendentemente, para o tédio.
Da primeira vez que vi o Benfica-Real Madrid, em 1962, Amesterdão, pareceu-me que ganhámos infinitamente. A história dos números reconhece que, de facto, ganhámos, mas só por 5-3 – naquele dia, porém, eu não estava na Terra, pairava algures, e vivi uma vitória estrondosa.
Depois, das vezes em que revi esse jogo glorioso, mais calmo e justo, fui obrigado a admitir que perdemos por 3-2. As imagens já nem são a preto e branco, são em variados tons de cinzento, mas dá para ver que no terreno o resultado era esse. Falo da contabilidade de deuses. Nossos, havia dois: Coluna e Eusébio. Deles, havia três: Di Stefano, Gento e Puskas. Bons jogadores dos dois lados havia muitos, mas para deuses a conta era essa: 3-2, a nosso desfavor.
Em futebol sou muito exigente, aponto para cima. E, aí, encontrei Puskas. Desde logo, nessa final de Amesterdão, em que ele sai perdedor, porque o futebol é assim, caprichoso, mas onde marcou três golos. Anos antes, noutra final europeia, ele já tinha marcado quatro golos (contra o Eintracht Frankfurt). Por que não hei-de ser exigente no futebol se ele me dá tipos enormes como Puskas?
Ferenc Puskas, que vida! Morreu no cinquentário de um movimento, a revolução de Budapeste de 1956, que marcou a Europa e anunciou o mundo que vinha aí. E nessa transformação, ele não é um comparsa. É um protagonista. Aos 29 anos, escolheu nova vida, nova pátria, porque não aceitava a pata soviética. No fim de carreira, não alinhou pela prudência, foi coerente com o que antes tinha feito.
A equipa dele, a selecção húngara da final do Mundial de 1954, talvez o melhor futebol jamais praticado, animara o país humilhado e foi um dos motores para a revolta húngara. O artista estava ligado à vontade do seu povo, alimentado-a, como Chopin com a Polónia e Verdi com Itália.
E, além desse destino que o ultrapassa, houve também o seu próprio, de homem que combate a adversidade. Emigrante aos 29 anos, quer dizer, como futebolista já no fim. Fim? Depois dos 32 anos, Puskas foi por três vezes campeão europeu, ganhou cinco campeonatos espanhóis, onde foi, por quatro vezes, o melhor marcador. E foi Puskas: “Para mim o melhor futebolista do Mundo”, disse Eusébio.
O futebol tem disto, tipos assim, e-n-o-r-m-e-s. E, depois, na semana em que desaparece um deus destes, e sem que nunca se saia do assunto, o futebol, as televisões mostram longos e dolorosos minutos com um monólogo de Luís Filipe Vieira, com o resultado final de empate: Língua Pátria, 0 – Lógica, 0.
Repare-se, não se exige que um presidente de clube saiba falar português (embora Pinto da Costa o faça, e muito bem). Exige-se é que, não sabendo, se cale. Não sei como eram em discurso grandes presidentes do Benfica, como Ferreira Bogalho, os irmãos Vieira de Brito, Ferreira Queimado, Jorge de Brito... Sei é que nunca me envergonharam.
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