Segundo o semanário ‘Sol’, um dirigente do Bloco de Esquerda disse que a marcha pelo emprego está integrada no “mesmo espírito que permitiu ao Hamas chegar ao poder na Palestina e ter um operário na presidência do Brasil”. Disse como elogio. Surpreende-me que os exemplos do Hamas – sabem, aquele partido que incentiva os jovens palestinianos a vestir-se com dinamite para irem ter com virgens ao paraíso – e do presidente brasileiro – sabem, o presidente do PT de todas as corrupções –, Hamas e Lula, pois, sejam estandartes dignos de serem apregoados. Esqueçamos o Hamas, que é demasiado explosivo para merecer conversa. Fiquemos com Lula.
Lula é um filho do sertão pernambucano, emigrado para São Paulo, pobríssimo, vendedor de rua quando criança, com passagem breve pela escola, operário desde a adolescência, lutador pelos direitos dos seus colegas, sindicalista quando isso não era fácil (o Brasil vivia numa ditadura militar)... Que esse homem tenha chegado a presidente é mérito seu e mérito enorme. E mérito de um sistema desigual e oportunista chamado democracia, que é péssimo, mas é o melhor que há. Lula ter chegado ao topo graças a ela revela a força da democracia. Uma preciosidade que devia ser acarinhada e defendida.
Não foi isso o que Lula fez no seu primeiro mandato. Eleito em 2002, a sua presidência tem sido marcada por sucessivos escândalos. Do ‘Mensalão’, das sanguessugas e, o último, em plena campanha eleitoral – a 1 de Outubro, o Brasil elege presidente, governadores dos estados e deputados, federais e estaduais –, o escândalo do dossiê. Nenhum desses escândalos são só aquelas escorregadelas próprias do tal sistema desigual e oportunista. Sim, as corrupções do PT levam, como todas as outras, a que alguns ganhem uns dinheiritos extras. Mas na era Lula, as corrupções são também, e sobretudo, sabotagens deliberadas e estratégicas contra a democracia. Com Lula, corromper quer dizer tudo o que quer dizer, vem do latim ‘corrumpere’, tornar podre. Por isso, os beneficiados do ‘Mensalão’, por exemplo, não são só os do PT mas dezenas de deputados dos partidos da oposição.
Uma apoiante de Lula, Rose Marie Muraro, escritora, feminista e católica de esquerda, publicou este mês no jornal ‘Folha de São Paulo’ uma tribuna onde defendia essas corrupções do PT. Escreveu esta frase: “Ser moral dentro de um sistema imoral é legitimar a imoralidade.” Enfim, os fins justificam os meios. Mas um filósofo, Jean-Paul Sartre, já respondeu a isso, há meio século: “Sim, os fins justificam os meios, mas estes condicionam os fins.” Eu cheguei à frase extraordinária da Muraro, através da crónica de Roberto Pompeu de Toledo, na última edição da revista ‘Veja’. Enojado, Pompeu de Toledo recorreu a uma citação ainda melhor do que a do filósofo para combater a apoiante do PT: “Ou se restaura a moralidade ou nos locupletamos todos.” A frase é de um humorista, Stanislaw Ponte Preta.
Cito eu agora outro humorista, Millôr Fernandes: “Só haverá democracia no dia em que houver voto a favor, voto contra e voto retroactivo.” Cito-o para dizer que Millôr está errado. Os brasileiros têm voto retroactivo, no dia 1 de Outubro podiam emendar o erro de 2002. E não vão fazê-lo.
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