Confesso que não consigo ficar insensível à iniciativa da presidente da Câmara de Vila do Rei, na Beira Baixa, ao promover a vinda para Portugal de quatro famílias brasileiras com o objectivo de iniciar o repovoamento do seu concelho.
Não ficar insensível é enaltecer a iniciativa, louvar a coragem e a inteligência, apoiar a atitude e a boa intenção.
Vila do Rei é um dos mais pobres concelhos do País, cerca de 1000 pessoas activas, mais mortes que nascimentos, quase sem população escolar. Todos os anos fustigado pelos incêndios, todos os anos um degrau abaixo no caminho para o desaparecimento.
Irene Barata assumiu o espírito de D. Dinis e fez o primeiro gesto para reconfigurar a vida no concelho.
Lutar contra a desertificação, acreditar na criação de riqueza, saber que sem população a terra perde sentido é o mérito desta autarca que eu não conhecia mas cuja decisão aplaudo.
Vieram assim de Maringá, do Estado do Paraná, uma zona deserdada do Brasil, quatro famílias. Oito adultos e seis crianças. É gente que traz a esperança no coração. A vontade e a determinação para vencer num outro lugar. É gente que acredita na vida e não se conforma com uma existência apagada.
A história surpreende-nos às vezes. O Brasil foi uma grande esperança dos portugueses nos séculos passados. O destino mudou. Portugal é agora a meta para brasileiros que já não suportam o ostracismo, a vida difícil, o esquecimento, a fome …
Eu quero acreditar que estes brasileiros vêm com vontade de animar Vila do Rei.
Animar é trabalhar, criar riqueza, abrir espaço, trazer ideias novas, procurar novas soluções para velhos problemas. Animar é redescobrir as potencialidades de Vila do Rei e juntar esforços com a população local, é ajudar a sobreviver e criar futuro para os filhos que trazem e para o País que somos.
Admiro a coragem destes brasileiros. De Maringá vieram sem percorrer os trilhos da imigração ilegal, como cidadãos do planeta que procuram outras paragens para serem felizes.
Ninguém pode afiançar os resultados desta experiência mas era preciso fazer qualquer coisa. E Irene Barata fez com uma enorme lucidez.
A solução da autarca parece ter acautelado os eventuais efeitos perversos deste repovoamento. Mas é preciso estar atento. Estes brasileiros não podem ser abandonados à sua sorte. Precisam de ser apoiados para rasgar outros horizontes que não sejam os da desolação e da morte que já imperam em Vila do Rei. Mas estes brasileiros também não podem desiludir.
Portugal precisa aproveitar esta energia para reerguer o seu Interior. “Sei que estás em festa, pá” … Vila do Rei vive a festa da esperança.
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