Eu tenho sobre a tragédia da ponte de Entre-os-Rios um ponto de vista, expresso com muita clareza na altura oportuna, e que agora me limito a sublinhar os pontos basilares, para não ser mal entendido no que me proponho dizer.
É inquestionável que aquela tragédia deixou o País em estado de choque e só não emocionou aqueles que já secaram a alma e os olhos noutras batalhas.
É indiscutível que o Estado tem responsabilidades em tudo o que aconteceu, porque construindo uma ponte deveria fazer funcionar automaticamente os sistemas de fiscalização e manutenção dessa estrutura.
Portanto, em Entre-os-Rios, há uma responsabilidade política que foi assumida com uma dignidade única pelo ministro Jorge Coelho (apesar de não ter nenhuma intervenção directa no assunto); uma responsabilidade (cível) do Governo que socorreu todas as famílias na hora da tragédia e indemnizou-as pelas irreparáveis perdas das 59 pessoas que ali morreram na fatídica noite de 4 de Março de 2001; e há uma responsabilidade criminal que só pode ser assacada ao Estado – essa entidade sem rosto que num País pobre vai oscilando entre duas representações – a do grande carrasco e a do grande benfeitor.
Com todo o respeito pelos familiares das vítimas, eu creio que se anda ou andou à procura de um bode expiatório, com nome e rosto para ser responsabilizado criminalmente, já que o Estado não pode ir para a cadeia. Por tudo quanto vi e li, na ausência desse bode expiatório, que ajudaria a afastar os últimos fantasmas e ainda as muitas dores sobre o que sucedeu, as agulhas voltaram-se para o juiz que, salvo melhor opinião ou outros dados que não possuo nem vieram a público, até julgo que decidem bem e com uma enorme coragem e sentido de justiça.
Sinteticamente – acusam-se 22 areeiros que extraíam areias no âmbito de licenças passadas pelo Estado e pelas autarquias. Mas isto não é uma injustiça? Que sabem eles sobre a resistência da ponte, as cheias, a fiscalização técnica, etc. A ponte é antiga. Os areeiros acusados talvez não tivessem ainda nascido. A areia já era extraída por outros, que entretanto já morreram. É obrigação dos areeiros que trabalhavam legalmente testar a resistência dos pilares? Haja sensatez.
Os cinco engenheiros da ex-JAE que se sentaram no banco dos réus foram também acusados da queda da ponte. Porquê? Durante as dezenas e dezenas de anos que a ponte tem, quantos engenheiros trabalharam nas estruturas da JAE? Então foram estes ou podiam ter sido outros? A ponte caiu pelo excesso de tráfego, pela extracção de areias, pela incapacidade de fiscalizar, pela falta de dinheiro do Estado? Estes engenheiros cumpriam ordens, tinham chefes, subordinavam-se a decisões e opções dos ministérios?
Porquê, estes engenheiros? Haja sensatez. Ou muito me engano, ou o juiz Nuno Melo foi, como lhe compete, justo. Ele não tem de inventar culpados.
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