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E nas chamadas sociedades do bem-estar, o que não cheira a qualidade de vida é rapidamente rejeitado e posto a recato do olhar considerado socialmente mais conveniente.

Para os pobres criam-se bairros adequados, a eles inteiramente consagrados. Para os imigrantes, admitem-se zonas especiais, rapidamente transformadas em guetos onde a lei fica à porta.

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A criminalidade urbana, em grande medida, é consequência de uma política social que encaixotou culturas e modos de vida em áreas geograficamente distintas, esperando que estas apenas se tocassem no mínimo indispensável.

A sociedade do bem-estar tolera mal os exemplos do “mal-estar”. Mesmo que inconscientemente, a opção pelo aborto ou a defesa da eutanásia, também passam por aqui: ultrapassar incómodos ou, numa linguagem em alta, resolver disfunções! Mais do que tudo, importa preservar o conforto dos visivelmente vivos: a criança por nascer e o doente terminal são reduzidos a factores sem voz nem peso nas decisões a tomar ou simplesmente manipuláveis, numa situação de fronteira entre a vida e a morte.

A regra, nestes como noutros casos, é conceder a todos os desejos todos, pelo preço mais baixo. A miragem, por exemplo, de que tudo é possível e ambicionável no plano material, acaba por gerar as maiores frustrações no confronto com a realidade: nem tudo é possível nem “desejável” e o preço, em geral, é alto, porventura incomportável para os autores do desejo.

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Nesta lógica, o exemplo do Papa João Paulo II é frequentemente olhado com um misto perturbador de respeito e incompreensão.

A perturbação advém do facto de o Papa parecer optar sempre pelo caminho mais difícil. Se o comum dos mortais anda à procura de “facilitar”, na sua vida e na dos outros, que razão leva o Papa a “complicar”? Por que não desiste e descansa de uma vida comprovadamente cheia e atribulada? Que motivos levam João Paulo II, com esta idade e estas doenças, a testemunhar que ainda assim a vida vale a pena ser vivida? Numa sociedade empolgada pelo culto da imagem, porque não se preocupa o Papa em legar apenas uma imagem saudável e robusta do homem que já foi?

O exemplo do Papa não se dirige apenas aos destinatários mais óbvios: os mais velhos e os mais cansados. A vida e a velhice de João Paulo II constituem uma lição de vida também para aqueles que sendo novos de idade, parecem cansados, antes do (seu) tempo.

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O testemunho vibrante de vida do Papa, nos momentos de saúde mais delicados, constitui-nos a todos numa enorme responsabilidade – não desistir nem renunciar a dar sentido e rumo às nossas próprias vidas. É uma busca necessária, para crentes e não crentes, mas a que João Paulo II, com esta Páscoa, dá uma oportunidade especial – absolutizando a vida e relativizando os “pequenos nadas”.

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