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Na SIC, José Sócrates deu uma longa entrevista a Ricardo Costa e Nicolau Santos, sobre os três anos de Governo. Ao dissecá-la, esboçarei um paralelo entre o primeiro-ministro (PM) e o filósofo grego Sócrates (470-399 a.C.). Juro que será divertido e instrutivo. Trata-se não de uma análise política mas de uma crítica de TV.

Pode ser injusto avaliar o PM enquanto ‘persona’, pois demagogia é precisamente convencer pelo carisma e não pela substância – dizer aos outros o que eles querem e não o que precisam de ouvir. Mas são as regras contemporâneas, contaminadas pelo espectáculo. A contrapartida: estamos mais treinados a mentir com palavras do que com os rostos. Não nos lembramos de que as nossas caras são controladas por um sistema autónomo e involuntário de movimentos musculares, que revelam o que de facto estamos a sentir.

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Com a sua sucessão de grandes planos faciais, uma entrevista de TV é uma espécie de polígrafo… O Sócrates luso é fotogénico, ao contrário do ateniense (pançudo, nariz abatatado e pindérico). Mas o contexto não é jeitoso: um PM democrático tem de adoptar medidas impopulares, apostando mais no estrutural do que no conjuntural. Caso da alternativa rigor orçamental ou diminuição dos impostos. O PM recorreu (inconscientemente) a maiêutica socrática (responder com perguntas) e ficou demonstrado que toda a gente acha justíssimo que se taxe o próximo. Nas questões económicas, o Sócrates luso viu-se grego. Parecia um sofista: criou 94 mil postos de trabalho mas a taxa de desemprego subiu!

O filósofo grego foi condenado à morte (ingestão do veneno cicuta) por ‘corromper a juventude’. Ora, no tema Educação o PM safou-se bem e vendeu o seu peixe na área não menos minada que é a da Saúde. Os entrevistadores deixaram passar em brancas nuvens a seráfica afirmação: “Se forem a Torres Vedras, verão a satisfação das pessoas.” Desgraçadamente, se Torres Vedras é Portugal, Portugal não é Torres Vedras (o País está menos para o Carnaval do que para a Quarta-Feira de Cinzas). O ateniense disse: “Só sei que nada sei.” Era sábio porque conhecia a sua ignorância. Há anos, Cavaco Silva proclamou que nunca tinha dúvidas. Já o Sócrates luso acertou ao realçar que aquelas eram apenas as suas convicções – e como PM lhe compete aplicá-las.

Opções não implicam infalibilidade Papal. Churchill: “A democracia é uma forma de governo muito insatisfatória – e imensamente superior a qualquer outra”. É a sensação no fim da entrevista: nas próximas eleições, podemos mudar de entrevistado (ou de canal). O título desta crónica? Um truque sujo para chamar a vossa atenção – se o PM bebeu cicuta, já trazia o antídoto.

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