A semana passada, neste mesmo espaço de opinião, antecipei o debate entre Santana Lopes e José Sócrates. Afirmei, então, que uma vitória de Santana Lopes só seria reconhecida caso fosse particularmente expressiva.
Santana venceu. Não foi um KO, mas foi uma vitória clara aos olhos de milhões de portugueses que assistiram ao confronto em directo pela televisão.
Foi um José Sócrates tenso, artificial, sem chama e com um domínio rudimentar dos assuntos discutidos que apareceu perante mais de quatro milhões de portugueses. Foi batido em toda a linha.
Contudo, nessa mesma noite, logo após o debate, um primeiro comentário televisivo de um director de um jornal declarava a vitória do secretário-geral do PS. Esta performance, segundo o mesmo analista, assegurava aos socialistas a maioria absoluta em 20 de Fevereiro.
No dia seguinte, a maioria dos analistas e comentadores transformava em empate uma vitória clara. E, tal como previ, o condicionamento continuou: o comício de abertura da campanha oficial do PSD, em Castelo Branco, foi mais participado do que o do PS? Não importa. Para uma parte significativa da Comunicação Social, esta mobilização só foi possível com militantes transportados em camionetas oriundas de todo o País!
O primeiro-ministro, mais uma vez debaixo de fogo, é acusado de ter usado um Falcon para ir a uma cerimónia oficial a Monte Real e de ter interrompido a campanha eleitoral no Carnaval, realizando um encontro com a Comunicação Social.
Ficamos a saber que é legítima a utilização de camionetas para transportar os jovens que decoram os palcos do PS, mas que essa utilização é ilegítima quando se trata de transportar apoiantes sociais--democratas.
Ficamos igualmente a perceber que parar a campanha no Carnaval é um ‘crime’; que celebrar um protocolo na pele de primeiro-ministro é uma ‘trapalhada’; e que receber jornalistas na residência oficial de S. Bento é uma encenação carnavalesca.
Ou seja, tudo o que é normal nas democracias adultas, em Portugal é utilizado como arma de arremesso para denegrir a imagem de quem se quer destruir. A qualquer preço.
Foi neste caldo de cultura que José Sócrates e alguns dos seus apoiantes, por exemplo Vital Moreira, vieram a público questionar a contratação pela RTP de Marcelo Rebelo de Sousa, reeditando os argumentos de Rui Gomes da Silva que fizeram sair o professor da TVI.
Onde está agora o coro de indignação que o chamado ‘caso Marcelo’ provocou na altura? Onde estão os programas de debate na rádio e na televisão que dias a fio dominaram o cenário mediático? Onde está a inefável e veneranda Alta Autoridade para a Comunicação Social e as suas preocupações em relação à liberdade de expressão? Remeteram-se ao silêncio. Um silêncio ensurdecedor.
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