Os votos de felicidade que por estes dias mutuamente nos desejamos sustentam-se em valores muito diferentes dos que comandam as finanças e a economia. São expressão de sentimentos de solidariedade e, para os que sentem o Natal como comemoração do nascimento de Jesus, uma vontade especial de transmitir esperança num mundo melhor. Com mais amor, paz e justiça, em absoluto intrincadas entre si.
A genuinidade destes valores é tão grande como a desorientação provocada pelos acontecimentos do último ano, com a sociedade portuguesa e a maior parte da comunidade internacional mergulhadas numa crise de falta de confiança e esperança. Dá para pensar no que os católicos consideram dons de Deus: Fé (confiança), esperança e caridade. Admito que a maioria das pessoas não os conheça como tal. Pergunto, no entanto, se não será importante para a sociedade entender e cultivar esses valores? As realidades apontam para o sim. São dotes de que a sociedade está enormemente carenciada
No mundo ocidental, depois de dez séculos de luta entre os poderes religioso e secular, os reis impuseram o absolutismo de "O Estado sou eu", afirmado por Luís XIV, de França. A seguir as coisas mudaram. Desde a independência dos EUA, na segunda metade do século XVIII, as ideias da democracia passaram a predominar.
Nos países muçulmanos e noutros mais atrasados em termos de definição do Estado, a evolução ainda se encontra noutra fase. Enquanto os segundos sofrem sob as ditaduras mais absurdas, nos territórios do Islão surgiram estados teocráticos como resposta ao facto de a economia de mercado suscitar, de facto, um desenvolvimento desigual, marcado pela falta de justiça e, consequentemente, da Paz. A modernidade adoptada pelo Xá da Pérsia nos anos 60 e 70 viu-se abruptamente desviada com a implantação, há 28 anos, do regime dos ayatollahs. Hoje regista-se no Irão o estabelecimento de um novo tipo de afirmação nacional que se apresenta para os ocidentais como o da ameaça da bomba atómica.
Preocupados com o eventual acesso do Irão a armamento nuclear, e outras guerras ditas civilizacionais, não houve no Ocidente atenção suficiente ao que se passava dentro de portas. Os mercados financeiros aqueceram ao ponto de cegar qualquer supervisão e queimar os limites da lei. Valeu absolutamente tudo. Até houve uma D. Branca americana em presidente de bolsa, além de todo o género de falcatruas. A economia real vai ter de pagar tudo, com graves consequências, em primeiro lugar, para quem vive de vender a sua força de trabalho e precisa, mesmo, de muita felicidade para o próximo ano. Feliz e próspero Ano Novo.
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