A única forma de entender a insistência do Governo na reforma das leis laborais é analisá-la à luz do princípio da distração. Em linguagem muito simples, isto quer dizer que o Executivo espera que o País e os partidos da oposição não falem de outras matérias enquanto estiverem focados na já longa novela da alteração das normas que regem o trabalho. Trata-se de nos distrair dos reais problemas do País. A seu tempo, e sobre outra matéria, o então Presidente Marcelo falou em “lei-cartaz”, ou seja, leis que servem para afirmar os princípios da propaganda, em vez de serem uma ferramenta útil para a ação, algo que, manifestamente, as normas propostas para alterar as leis do trabalho não são. A reforma das leis laborais é a lei-cartaz de Montenegro, tal como o pacote sobre habitação, de que o chefe de Estado falava em 2023, foi a lei-cartaz de Costa. Tudo se conjuga para que, nesta matéria, a oposição à direita caia na armadilha de Montenegro. Ventura tem na redução da idade da reforma a sua nova arma secreta. O líder do Chega sabe que isso é inexequível. Isso significa que a proposta será seu exclusivo permanente, em que ninguém vai pegar, pelo menos enquanto persistir o atual quadro parlamentar. Como Ventura sabe que não será Governo em breve, poderá brandi-la até ao fim. A partir daqui, debater à exaustão a reforma da lei laboral passa a interessar tanto à AD como ao Chega, para no fim não haver acordo, o que servirá aos dois. Cabe ao PS escapar a esta armadilha política.
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