Carlos Rodrigues

Diretor

"Ventura passou a habitar o jardim dos caminhos que se bifurcam"

11 de fevereiro de 2026 às 00:32
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Ventura teve uma derrota muito significativa nas presidenciais e fica numa encruzilhada complexa. Não conseguiu alargar a base eleitoral. Ficou acantonado ao universo do Chega e pouco mais. Trilhando os mesmos caminhos, dificilmente chegará ao poder. Ficará reduzido a uma voz de protesto, mais ou menos irrelevante. O envelhecimento das suas causas fará o resto, e acabará por relegá-lo para campo secundário. Depois, geriu mal a reação ao raide policial contra os grupos neonazis. Precisava de se demarcar de forma clara. Não o fez. Deve precaver a necessidade, no futuro, de repudiar sem hesitações fenómenos criminosos. Também a sugestão de adiamento das eleições foi um tiro no pé. É quando a vida coletiva mais se perturba que os portugueses desejam previsibilidade. Os eleitores quiseram provar que a vida continua. Ventura fez o papel do populista que não percebe onde está o sentimento maioritário do povo, e acabou divorciado da grande corrente. Ora, isso afeta o mais fundo do seu projeto. Finalmente, Ventura não estava preparado para o resultado, o que é surpreendente porque as sondagens já o previam. A entrada furtiva no hotel na noite eleitoral e a fuga às perguntas dos repórteres mostram que o discurso não estava afinado para o resultado que se veio a verificar. Usando uma linguagem literária, Ventura passou a habitar o jardim dos caminhos que se bifurcam. Ou se reinventa, ou acabará por tornar-se irrelevante.  

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