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Almeida Henriques

Rentrée

O país respira fundo. Tem razões para desesperançar, mas (como dizia alguém) aguenta.

Almeida Henriques 2 de Setembro de 2014 às 00:30

Indiferente ao calendário, um verão retardatário faz questão de colocar os termómetros a baterem os máximos de temperatura da estação. É uma ironia quase maldosa para quem já regressou ao trabalho, mas a que cada vez mais nos habituamos. Alguns amigos mais avisados já preferem fazer férias na época das vindimas. (By the way, apresentou-se ontem em Viseu a primeira 'Festa das Vindimas do Dão', numa programação que abre as portas de quintas quase virgens da região a experiências entre os vinhedos, adegas, lagares e cantares, vinhos e gastronomia...).

Seja como for, o calendário não disfarça. Esgotou-se o mês de agosto e despede-se o veraneio. Famílias, empresas, Governo e partidos fazem a sua rentrée, termo jornalístico que entrou pela porta da política no quotidiano.

Mas a rentrée não é apenas um regresso: é um novo ciclo, uma nova agenda, uma nova energia. Muitas famílias, crianças e jovens têm o regresso às aulas! Pudera que o país político e o país económico pudessem ter livros novos, cadernos novos, lápis novos e uma mochila por estrear, e fosse possível começar (quase) tudo de novo. (Momentos há em que um país feito do zero parece um alívio, embora fosse uma loucura).

Infelizmente não é assim tão fácil. O 'dossier BES', entre o 'Banco Mau' e o 'Banco Bom', promete ainda água pelas barbas. A estabilização é muito precária e a hecatombe do gigante não suspendeu ainda o seu efeito-dominó. Depois há o país político, embrulhado em nós que tardam em desatar. O Governo parece sofrer o castigo de Sísifo, em torno de chumbos constitucionais e de um cerco de incomunicabilidade com o PS que não se resolve(rá). A Oposição apresenta-se frágil e com lideranças cindidas ou adiadas, enfraquecendo o debate político num momento crítico. Nada ajuda e a agenda reformista do Estado, da economia e dos territórios vai soçobrando.

Do novo QREN ainda se sabe muito pouco e as promessas do arranque dos seus financiamentos, vitais para sustentar a reforma da economia real e a coesão do país, são vagas e um pouco tímidas. O país respira fundo. Tem razões para desesperançar, mas (como dizia alguém) agenta. Depois de tudo merecíamos melhor rentrée. Felizmente ainda há verão.

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