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Almeida Henriques

Amor Impossível

A cultura pode ser no “país real” aquilo que dificilmente será na Lisboa dos tuk-tuks.

Almeida Henriques 15 de Dezembro de 2015 às 00:30
Não é um fait divers – e tem aos meus olhos um alcance político e simbólico. Talvez por isso tenha merecido as honras de ser um dos primeiros atos oficiais do Ministro da Cultura, João Soares. Do que falo? Da antestreia, em Viseu, neste sábado, do novo filme de António-Pedro Vasconcelos – o ‘Amor Impossível’. Chegará às salas de todo o País a 24 de dezembro.

Se não é todos os dias que o País vê o cinema nacional afirmar-se, mais raro é ainda quando o cinema (e a produção cultural) ganha asas fora de Lisboa e raízes no "país real".

Esta nova longa-metragem da ficção nacional não apenas teve a efemeridade da sua antestreia em Viseu, como foi lá integralmente rodada. E Viseu não foi, nem quis ser, uma cidade- -papel-de-parede.

A sua paisagem urbana serviu de palco e cenário, mas a cidade foi também alma: muitos atores, técnicos e figurantes locais deram corpo ao filme e o lugar marcou todo o ambiente da criação.

Estão de parabéns o realizador António-Pedro Vasconcelos e o produtor Tino Navarro, pelo impulso de sair da "centralidade" da capital e procurarem um outro ecossistema.

Terão sido surpreendidos. Surpreendidos pelo padrão superior de qualidade de vida, urbanidade, organização local, património e densidade humana de Viseu, que serve apenas de exemplo (superlativo, porventura) do que são hoje várias cidades-médias em Portugal. Algumas delas históricas e com uma pujança social, económica e criativa muito acima da sua notoriedade mediática.

O país televisivo não faz hoje justiça ao país real. E isto merece uma reflexão – e mais do que isso uma política.

Tal como a erosão profunda da comunicação social no território nacional e o seu confinamento, invariavelmente, às redações em Lisboa.

O filme de Vasconcelos serve-me de trampolim para a pergunta fulminante: será a descentralização um "amor impossível" para o Estado e para as políticas nacionais? Se estamos de acordo nos diagnósticos das assimetrias e nos desígnios da coesão, o que impede o virar da página?

A cultura, em particular, pode ser no "país real" aquilo que já dificilmente pode ser na Lisboa dos tuk-tuks: uma vitamina na promoção de identidades locais distintivas e autênticas, e de talentos humanos por valorizar. Seremos capazes de um happy end?
Almeida Henriques opinião
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