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Almeida Henriques

Caçar com gatos

Diz o povo que “quem não caça com cão, caça com gato”. Mas há, apesar de tudo, limites.

Almeida Henriques 26 de Maio de 2015 às 00:30

Recebi ontem em Viseu o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira. É uma das vozes mais lúcidas e combativas sobre o centralismo do Estado que esmaga e estrangula o país. Não por acaso. Portugal continua a ser o país mais centralizado da OCDE, e os efeitos venenosos dessa macrocefalia da capital têm-se feito sentir na pele e nos indicadores de coesão e crescimento. Aí estão os recentes relatórios da OCDE e do Eurostat sobre as nossas desigualdades económicas gritantes e as profundas assimetrias territoriais de riqueza. Continuamos a marcar aqui pela negativa os rankings e gráficos da União Europeia e das organizações internacionais.

Vem isto a propósito da urgência de uma política forte e consciente de desenvolvimento regional em Portugal, que ontem reclamei ao lado de Rui Moreira. Infelizmente, os sinais dos novos fundos do ‘PORTUGAL 2020’ têm sido frustrantes e duvidosos. Em vez de verdadeiras estratégias territoriais, temos folhas de Excel com mapeamentos centralistas e obrigações impostas de "cima para baixo". Assim, o "país real" não respira nem se afirma.

Quase um ano depois do ‘Acordo de Parceria’ fechado com Bruxelas, o ‘PORTUGAL 2020’ continua em "ponto morto" para as regiões e para as cidades. A política urbana não desata e ameaça ser asfixiada por condicionamentos esdrúxulos. A promessa de uma alavanca forte para a regeneração urbana, o empreendedorismo local e a revitalização dos bairros sociais, a eficiência energética ou a melhoria da mobilidade urbana continua a ser retardada e diminuída.

Mas nem tudo é negativo. Na ausência de um Estado descentralizado e de estruturas de governação regional, as cidades e os seus líderes mexem-se. A cooperação do Porto com Viseu, por exemplo, permitirá lançar uma "ponte" turística entre as duas cidades que reconhecem boas complementaridades entre si. O Porto é uma cidade turística com grande pujança que pode irradiar influências positivas para Viseu, como para o Douro. Por sua vez, Viseu é uma centralidade a pouco mais de uma hora de distância, um destino cultural e enoturístico complementar e uma importante porta de entrada para Salamanca.

Diz o povo que "quem não caça com cão, caça com gato". Mas há, apesar de tudo, limites. Oxalá se mude a rota a tempo.

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