Luís Campos Ferreira

O meu coração de ouro

21 de agosto de 2026 às 00:30
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As ruas enchem-se de vermelho forrado a dourado. De um lado e do outro, as pessoas amontoam-se nos passeios, enquanto disputam um lugar na primeira fila. Erguem os mais pequenos aos ombros, que esticam o pescoço para ver o que se aproxima. E quando o cortejo chega, há um silêncio breve, de admiração e espanto, logo substituído por aplausos e exclamações. As jovens que desfilam, trazem consigo, literalmente ao peito, o coração de uma cidade inteira. A luz de agosto irradia o ouro e devolve à multidão um brilho que quase cega, mas do qual ninguém quer desviar o olhar. Há festas que podem não dizer muito a quem não é da zona, mas que dizem tudo a quem as organiza, as vive e, sobretudo, a quem cresceu com elas. É o meu caso com a Romaria d’Agonia.

As celebrações remontam a 1772, quando os pescadores de toda a costa norte, numa faixa que se estendia até à Galiza, assumiram Nossa Senhora da Agonia como padroeira e lhe entregavam parte dos frutos da pesca, num gesto de fé nascido da dureza do mar e dos perigos que enfrentavam a cada saída. A partir de 1783, passou a realizar-se a celebração anual que, desde então, marca fielmente o mês de agosto na cidade de Viana do Castelo. Atualmente, é considerada a maior romaria de Portugal e celebra-se há mais de dois séculos e meio. Entre tradição e espetáculo, a cidade vive, durante vários dias, um encontro singular.

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Este ano, a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia realiza-se entre 15 e 23 de agosto, ou seja, está a decorrer neste preciso momento, sob o mote ‘Um só coração’. Os momentos altos sucedem-se ao longo destes dias. Entre eles, a Procissão ao Mar, em que se acompanha a imagem de Nossa Senhora da Agonia à entrada da barra e ao rio Lima, é um dos momentos da festa, ao passo que os tapetes floridos, adornam as ruas quando o dia amanhece e transformam o chão em verdadeiras obras de arte. Para mim, contudo, o ponto alto é o Desfile da Mordomia, no qual, para meu orgulho, uma das minhas filhas já participou. Neste, centenas de mulheres percorrem as ruas com os trajes tradicionais e quilos de ouro ao peito, num dos momentos mais impressionantes e fotografados de toda a romaria. As celebrações contemplam ainda a Festa do Traje, onde se exibe o traje tradicional vianense em toda a sua riqueza, e o Cortejo Histórico-Etnográfico, que percorre a cidade com episódios marcantes da história e da cultura local. Por fim, e talvez o momento mais divertido para os mais novos, há a Revista de Gigantones e Cabeçudos na Praça da República, que há gerações arranca sorrisos a miúdos e graúdos.

Talvez por ter nascido em Viana, estas festas tenham um imenso significado para mim. São uma peça importantíssima no património cultural português e, sobretudo, da região norte. Ao crescer, fui vendo a forma como atraem pessoas de todo o lado, vindas de todo o país e cada vez mais do estrangeiro, para verem aquilo que de melhor o Minho tem para oferecer. E, no fundo, é isso que a Romaria nos lembra todos os anos: que há tradições que não se explicam, vivem-se. E quem as vive e cresce com elas, dificilmente as esquece.

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