Fernando Ilharco

Professor universitário

Quem pensa muito fica com um pé no ar

19 de fevereiro de 2017 às 00:30
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Também na vida familiar as escolhas por vezes não são fáceis. É importante fazer obras em casa, mas umas férias em família também o é. Fazer uma coisa implica não fazer outra. O que escolher?

Ir por partes é o conselho da ciência. Decidir rápido por qualquer uma das opções. Tome uma decisão suficientemente boa; não exija que seja a decisão óptima. Decidindo, sentimo-nos menos pressionados, mais calmos e com mais controlo sobre as coisas. Decidir, em si mesmo, diminui a ansiedade, o que ajuda a tomar novas e melhores decisões.

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Mas, atenção, decida sem querer tomar a decisão perfeita. O óptimo, como diz o ditado, é inimigo do bom. Se quer apenas o óptimo vai acabar por adiar e adiar… Diz um ditado chinês: "quem pensa muito fica com um pé no ar". Heidegger, o filósofo alemão, dizia haver "sempre algo de misterioso, de inexplicado, em cada decisão", por isso é que uma decisão é uma decisão.

Pondere, escolha e aceite o suficientemente bom. Escolhemos o que gostamos, pensamos; e pode ser. Mas o neurocientista Alex Korb, em ‘The Upward Spiral’, chama a atenção para o facto de as pessoas, independentemente de gostarem muito ou pouco do que escolhem, no futuro virem a gostar do que escolheram. Entre saldos e promoções, hipermercados e lojas, muito boa gente desabafa: "dantes quando tudo era pior, era tudo melhor". Vivemos numa sociedade em que a oferta de informação, serviços e produtos é superior à procura.

Há mais telemóveis à venda do que pessoas para os comprar; mais carros, mais livros, teatros, filmes, concertos do que os que alguma vez serão comprados, lidos, vistos, ouvidos. Há mais informação do que a que alguma vez poderá ser utilizada. Neste quadro de variedade sem fim, o problema de fundo é a escolha. Confrontados com milhares de opções, desde filmes a telemóveis, a viagens, carros e casas, quando se escolhe, as coisas podem correr mal. O filme não era grande coisa, a viagem foi um problema, o computador funciona mal… E de quem é a culpa? Com tantas possibilidades, de quem é a culpa? É tua. Quem escolhe fica com um sentimento de culpa; não sabe, fez mal, é o responsável pela situação, refere Barry Schwartz em ‘The Paradox of Choice’.

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O que fazer então? Deixe de querer o melhor. O mundo mudou e entre tanta variedade, tantos aspectos, gostos e preferências, não tem sentido optimizar. Procure o suficientemente bom. Diz Schwartz: "suficientemente bom geralmente é suficientemente bom".

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